Cultura

Caco Ciocler e o papel do artista em tempos difíceis

Danilo Casaletti
| Tempo de leitura: 4 min

Caco Ciocler confessa que, passados noves meses de quarentena, o tédio começou a bater. Mas o sentimento não foi de todo o mal. Rendeu um filme que está em processo de edição e que deve ser lançado em breve. O ator, de 49 anos, faz mistério sobre o tema, mas o documentário foi filmado na pandemia e tem a ver com ela. "Ele só faz sentido se for lançado durante a quarentena. Torço pela a vacina, mas o filme precisa sair primeiro", brinca, em entrevista por telefone

O enfado de Ciocler não é por falta de trabalho. Na metade do ano, ele se ocupou com "Partida", um híbrido de documentário e ficção que dirigiu. O longa ganhou a Biznaga de Plata de melhor documentário no Festival de Málaga, na Espanha, e venceu o Grande Prémio Vicente Pinto de Abreu no festival Porto/Post/Doc, em Portugal, e mostra um grupo que parte para o Uruguai com o objetivo de encontrar o ex-presidente Pepe Mujica em dezembro de 2018.

Entre todas as ocupações - entre elas a terceira temporada da série "Unidade Básica", em que ele atua como ator e diretor -  Ciocler começou uma faculdade de Biologia a qual ele acaba de concluir o primeiro ano. "Eu acho uma delícia recomeçar."

Você começa a colher prêmios do filme "Partida".

Caco Ciocler - Como sou um diretor novato - esse é meu segundo filme -, e o mais autoral, esses prêmios me dão um norte artístico: fiz algo que alcançou o público, no Brasil e fora dele. Nunca pensei que ele fosse ser compreendido fora do País. Não por ser de difícil compreensão, mas pela discussão que ele representa, que é tão brasileira. Além disso, traz a confirmação de que fizemos uma obra potente para o País e o cinema. As pessoas também começam a me reconhecer como diretor.

E do que ele trata?

Caco Ciocler - Eu não posso falar muito sobre ele. Posso dizer que foi filmado durante a pandemia, todo de maneira remota, e é um aprofundamento dessa brincadeira entre realidade e ficção. É um filme simples tecnicamente. Não gastei um tostão, não tem edital Gastei, na verdade, R$ 3 mil, para pagar o editor. Agora começa a procura de uma produtora que se interesse por ele. Acho que ele é mais potente que o Partida. Estou feliz e louco para lançar o mais breve possível porque ele só faz sentido se for lançado na quarentena. Torço pela a vacina, mas o filme precisa sair primeiro (risos).

Você apresentou uma peça online, "Medusa", a convite do Sesc. Como foi a experiência?

Caco Ciocler - Foi um horror. O teatro não aconteceu. Ele não acontece sem plateia, ela faz parte do jogo teatral. É uma conversa, não dá para fazer algo independente. Foi a coisa mais solitária que fiz na vida. Não sabia o que eu estava fazendo, como estava chegando nas pessoas. Foi angustiante. Tem companhias pequenas que se apresentavam para 40, 50 pessoas que fizeram para 4 mil, 5 mil e foi legal para elas. Porém, as apresentações que vi não passaram de uma tentativa de encaixar uma coisa na outra.

O longa "Boni Bonita", que chega às plataformas, é de baixo orçamento. Por que apostou nele?

Caco Ciocler - Adoro trabalhar com diretores novos. Era uma coprodução Brasil-Argentina, com uma atriz de lá, e eu sou fanzaço do cinema argentino. É nossa obrigação, se a gente pode e gosta do roteiro, de fazer algo pelos diretores novos, estreantes, se colocar à disposição deles. Mas, confesso, o que mais me encantou foi a possibilidade de fazer algo para o cinema argentino, essa possibilidade de brincar de ser um argentino no filme. Tentei ser o Darín (Ricardo, ator argentino).

Sua quarentena tem sido produtiva ou se deparou com questões pesadas do isolamento?

Caco Ciocler - Comecei a sentir tédio há dois meses. O começo foi muito produtivo. Criei a Lista Fortes e isso me tomou tempo, fiquei enlouquecido. Nesse período, comecei a cursar a faculdade de Biologia. Também fiz aquelas coisas que muitos fizeram: aprender a cozinhar, a plantar, reformei a casa. Fui jurado do Festival de Gramado, do Festival de Aruanda. Mas, nesses tempos, estou mais tristinho e pensei: isso é o isolamento!

Qual o balanço que faz da Lista Fortes?

Caco Ciocler - Ela cumpriu seu papel, mas as empresas não estão doando mais, a pandemia foi para um outro lugar. Quis reformular. Uma ONG ambiental me ligou para fazer uma fusão. Provavelmente vamos criar um prêmio Lista Fortes que vai pontuar as empresas engajadas com as questões ambientais. Queremos que o consumidor vá ao mercado com uma lista e com a Lista Fortes para saber de quais empresas ele pode comprar.

 

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