Tribuna do Leitor

Caixa nº 2

Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril, professor universitário aposentado
| Tempo de leitura: 5 min

C hegava o momento final de Bento resolver sua vida. Não dava mais para continuar vivendo somente para cuidar da mãe viúva, bem idosa e doente, sem ter alguém do sexo feminino que aceitasse a velha como sogra, juntando os três na mesma moradia. Como seria bom, excogitava Bento, ter uma mulher em casa como sua e que o ajudasse nos cuidados requeridos pela nobre mãe. Na verdade, Bento tentou poucas vezes se aproximar de alguma senhora para tê-la como esposa e vê-la abraçar o sublime desempenho de zelar por sua mãe com o mesmo carinho que demonstrou por toda a vida, desde que seu pai escafedeu-se. As tentativas nesse mister não surtiram o resultado desejado. Uma de suas pretendentes, moça de postura um tanto rude, mãe solteira aparentando 40 anos de idade, com quem Bento enlaçou um namorico por curto tempo e bastante morno, mostrou logo suas garras, não conseguindo disfarçar o tipo de pessoa interessada em alguém afim de ajeitar-se.

Mesmo consciente que pisava em terreno minado, à mingua de opção, resolveu arriscar um olho convidando-a para morar, os quatro juntos, na sua casa. Bento ofereceu um teto, refeições à altura de sua palpável condição econômica e estudo para o garoto em escola particular; e, em contrapartida, exigiu o acolhimento de sua progenitora como verdadeira mãe, tratada com interesse e desvelo. Essa proposta verbalizada em tom de compromisso teve resposta em apenas alguns segundos no breve e acintoso dizer: "assim não dá. Tô fora, não tenho vocação para enfermeira".

A ansiedade de Bento encontrar logo uma parceira, parecia que o tempo impulsionava os relógios com maior rapidez, mais acelerados comparando com os tempos de juventude, que permitia fazer suas escolhas sem milongas, diferente da época atual, impondo a necessidade de negociar tudo, até mesmo as condições do concubinato.

A passagem rápida do tempo e a preocupação de conseguir uma pessoa adequada à dupla função de com ele viver em comum e ser cuidadora de sua mãe, produziu consequências na saúde de Bento. Sentia um pouco de cansaço no corpo como reflexos de alguns movimentos, outrora fáceis e indolores, porém, agora sensíveis e enfastiados. Diabetes alteradas e constante sensação de formigamento nos pés causada pelo nervo ciático, subtraiam-lhe o humor. Os cabelos estavam rebeldes, desobedecendo o preconizado pelos rótulos dos frascos e da propaganda da Internet, pois as loções anunciadas como milagrosas, sistematicamente neles aplicadas não estancavam a queda marcada todas as manhãs no travesseiro de dormir. Chegou a pensar: quantos fios ainda precisam cair para um homem ser considerado careca?

Um certo dia, a sorte veio a seu encontro quando esteve no banco para trocar um cheque. Tinha acabado de completar 60 anos de idade, o que tornou-se obrigatório apanhar a senha de idoso. O caixa que o chamaria era o nº 2. Um tapume separava os caixas do banco do público, o qual era convocado por um painel eletrônico. Na sua vez, Bento foi recebido com muita atenção pela funcionária que o deixou a vontade para fazer algumas perguntas no intuito de puxar conversa. Sentiu-se embaraçado com o tratamento, eis que não estava habituado a tais lhanezas.

No rápido momento de atendimento, procurou de soslaio prestar atenção na moça, vendo-a como um todo. Interessou-se. Deixou a agência bancária levando consigo a dúvida se era solteira ou casada. Seu dedo anular da mão esquerda não vestia aliança, mas isso nada significava porque poderia ter engordado depois do casamento ou durante a gestação e a aliança apertada não lhe servia mais. Examinando as hipóteses aparentes do problema, Bento ia eliminando todas, porque só desfilavam em sua imaginação situações negativas, conflitantes e brigas frequentes, causando dias de silêncio entre o casal, não recomendados a uma união naquela idade, com risco de desatar o laço do pacto e o abandono dos cuidados com sua mãe. Deixou os confusos pensamentos de lado e seguiu o comando do coração.

Bento passou a frequentar o banco com assiduidade, sob qualquer pretexto, até mesmo para servir amigos mais ocupados. Queria ver a moça do caixa nº 2, seduzido como se sentia ao vê-la apenas por um instante durante um dedo de prosa a cada passagem pelo estabelecimento. Soube por informações que a funcionária era divorciada e tinha dois filhos, ainda crianças, e provisoriamente estava sob abrigo dos pais até que a situação de aperto financeiro fosse superada. O que é um sinal de alerta para os outros foi um sinal verde para Bento a dizer para seguir em frente que o caminho estava livre e desimpedido para formular a mesma proposta recusada pela outra interesseira.

O receio do convite ser rejeitado era maior que a coragem de fazê-lo, mas não perderia essa chance para qualquer apressado que chegasse na sua frente. Escreveu num papel sua intenção, a mesma dirigida a moça anterior, e por receio da emoção não deixá-lo expressar por palavras, mobilizou-se ao banco num corajoso ato de solucionar a vida. Senha nº 2, sempre a mesma, o levou a presença da funcionária. O curto e objetivo bilhete foi lido e a funcionária fez uma rápida avaliação dos termos propostos respondendo que o convite era atraente e o proponente se portou como refinado cavalheiro, mas precisava de um prazo de dois dias para pensar e decidir junto aos pais qual seria a melhor solução.

- Por favor, volte depois de amanhã e terá a resposta. Bento ouviu as palavras com o coração acelerado e deixou o banco convicto que a palavra sim seria pronunciada com brandura no retorno.

Dois dias após estava Bento de volta ao banco segurando a senha a espera da chamada do Caixa nº 2. Olhando o número da senha escrita no painel direcionou-se ao caixa, vendo um funcionário atendendo no lugar da pessoa desejada.

Perplexo, perguntou sobre o paradeiro da funcionária, obtendo a informação que o ex- marido esteve no banco há dois dias propondo a reconciliação para a melhor criação dos filhos e ela pediu dois dias para pensar e responder. Voltou com o marido e foi removida para uma das agências da Capital.

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