Tribuna do Leitor

A vacina e o debate

Mário Henrique da Luz do Prado
| Tempo de leitura: 2 min

O infortúnio nunca cessante nessas terras nos traz um novo debate: deve ou não a vacina da Covid-19 ser obrigatória? De um lado, os que defendem a faculdade em não se vacinarem, alegando que a Constituição garante aos cidadãos o direito à liberdade, que seria violada caso a vacinação fosse obrigatória. De outro lado, os cientistas e os sensatos, defendendo a obrigatoriedade da vacina.

Na falta de um aprofundamento nos debates (que levaria o primeiro grupo à ruína de seus argumentos), e na falta de definição consensual do que seja a tal liberdade arguida, este autor vai à Europa do final do séc. 17, quando Luis XVI perdeu a cabeça e os franceses bradaram o que seria o ideal da democracia liberal: liberdade, igualdade e fraternidade. O grito por liberdade àquele tempo era um ato do povo contra o estado e seu absolutismo.

O liberalismo político, então, era ato de proteção e garantia do povo contra o Estado, e não como sugerem os atuais "defensores da liberdade", um grito por liberdade absoluta, anárquica, ou que desconsidere todo e qualquer pacto social. Então, conclui-se: a defesa da liberdade, aclamada nos dias de hoje contra a obrigatoriedade da vacina, é a antítese de si mesma, já que é, no melhor caso, grande contradição usar do grito de liberdade, que é do povo contra o Estado, para exigir que o Estado, tornando facultativa a vacina, torne inviável a proteção da saúde e da vida de todos.

Já é sabido (e os que não sabem, que sejam tão curiosos quanto são barulhentos) que somente a vacinação de rebanho de fato cumpre com seu objetivo e, por isso, a vacinação deve sim ser obrigatória.

A obrigatoriedade da vacinação não é abuso do Estado contra o povo. É medida de saúde pública, e nada mais.

O debate, que hoje clama um ideal democrático e republicano contra a saúde pública, é a absoluta antítese dos ideais de democracia e de república. Por isso, é um erro e uma contradição nefasta em si mesmo.

É, na verdade, não somente um debate antirrepublicano: é um discurso pré-paleolítico. Ora, mesmo quando nossa espécie era de nômades caçadores, havia, mesmo que em pequenos grupos, algum pacto social pela própria sobrevivência.

Só existimos como espécie e como civilização graças aos pequenos e grandes pactos de sobrevivência. Sem um mínimo pacto por sobrevivência, qualquer grupo sucumbe ao menor dos inimigos. Não há e não deve haver espaço para o discurso ilógico, apolítico, antirrepublicano, antissocial e nefasto que visa impedir a proteção universal da vida por meio da vacinação contra um vírus letal. Que nossa união seja para nos salvar, hoje e sempre, como indivíduos e seres sociais, se ainda tivermos por ideal qualquer civilidade.

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