Lavar as mãos, passar álcool gel, usar máscara e ficar longe de aglomerações fazem parte do mantra diário contra a Covid-19. Esses hábitos, porém, além de evitarem o contato com o novo coronavírus, têm limitado nossa aquisição de "germes do bem". Após quase um ano de pandemia, cientistas já se perguntam: estamos ficando limpos demais?
A questão é levantada principalmente pelos estudiosos da microbiota humana, nome que se dá ao conjunto de microrganismos que habitam o corpo. Essa população invisível aos olhos é composta principalmente de bactérias, e também por vírus e fungos, entre outros moradores.
Esses "habitantes" são ganhos e perdidos graças às experiências na vida, desde a barriga da mãe. O local de moradia, o clima, a alimentação, até o sono, interferem. Assim, a vida restrita e esterilizada da quarentena pode representar um ponto de inflexão para a microbiota, segundo pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e do Instituto Pasteur (França). Os cientistas apontam para um grupo que desperta maior preocupação: o dos bebês.
"Nós adquirimos o microbioma nos primeiros anos de vida. Os chamados mil dias, que vão da gestação até os 2 anos, decretam o nosso futuro. O microbioma que adquirimos ali vai funcionar como a nossa impressão digital. Ele pode melhorar ou piorar depois, mas tende sempre a voltar para essas características", diz Cristina Targa, presidente do departamento científico de gastroenterologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Por isso, os bebês da pandemia, que estão em um ambiente mais controlado, sem contato com outros, sem brincadeiras fora de casa, podem, lá na frente, ser mais propensos a doenças alérgicas e autoimunes.
CLOROQUINA
O microbioma de quem enfrentou a Covid também pode sofrer com medicações como a cloroquina e a hidroxicloroquina. O artigo cita pesquisas conduzidas na África Ocidental, onde essas drogas são amplamente usadas para malária, que indicam consequências negativas para as chamadas bactérias "boas".
E, como a pandemia não afeta todos de maneira igual, destaca Giles-Vernick, um dos autores do estudo, não se podem esquecer aqueles que, pelo contrário, não conseguem manter a higiene por falta de acesso a água limpa e sabão. Os mais pobres tendem a ter uma dieta pior no período atual que, somada à falta de saneamento, pode deixá-los mais sujeitos à baixa diversidade na microbiota. "O problema realmente depende de onde você mora, do status socioeconômico, do sexo, da idade."