Vamos imaginar aumentar tudo um milhão de vezes. Com esse aumento as bactérias teriam mais de um metro e um fio de cabelo estaria com cem metros de diâmetro. Mesmo com esse aumento não seríamos capazes de ver um átomo. Se o aumento for de cem milhões de vezes, suficiente para deixar uma bola de tênis do tamanho da Terra, esse átomo seria visível. Como o núcleo é cem mil vezes menor que o átomo, precisaríamos ampliar muito mais até que o núcleo se tornasse visível e ainda assim, não conseguiríamos ver seu elétron que estaria orbitando a uma distância de cem metros, com a assombrosa velocidade de cerca de 60 mil quilômetros por segundo. No núcleo, prótons e nêutrons são espremidos dentro de um volume diminuto por meio de forças nucleares e correm de um lado para o outro com velocidades ainda maiores.
A matéria não é inerte, ela é inquieta, dança e vibra e nela há um imenso vazio, um abismo preenchido com partículas e ondas e quanto mais os cientistas vasculham esse abismo, mais se dão conta que a massa em si não existe. Tudo o que existe são vibrações. Nós vibramos! Por outro lado, se estendermos nossa visão para o universo, veremos cerca de dois trilhões de galáxias, mas, ainda há partes do universo que, de tão longínquas, não conseguimos enxergar. Aliás, de tudo que o universo contém só conseguimos enxergar 4%. Os restantes 96% representam aquilo que sabemos que existe, mas, não conseguimos ver: a matéria e a energia escuras.
Nós acreditamos que tudo que acontece é detectado pelos nossos sentidos, mas, não é bem assim. Se considerarmos a natureza dos estímulos, existem três sentidos: visão, audição e contato (paladar, olfato e tato). A visão é ativada por ondas eletromagnéticas, a audição, por ondas elásticas e os outros três, por contato direto.
Nossos sentidos processam uma pequeníssima fração dos sinais que existem no meio ambiente ou uma porção ínfima do oceano de vibrações em que estamos imersos. É como se houvesse um filtro entre nós e a natureza, permitindo a passagem de apenas pequenas nesgas de frequências luminosas e sonoras e de algumas poucas sensações olfativas que são, então, processadas pelo nosso cérebro. Para nós, o mundo é o que o cérebro pode obter e compreender ao traduzir e transformar essas sensações em imagens mentais. À incompletude de nossos sentidos, devemos adicionar a subjetividade de nosso processamento mental porque o mesmo estímulo pode produzir sensações diferentes em diferentes cérebros. É desse modo que nossos limitados sentidos e nosso cérebro pintam o mundo para nós.
Estamos "cegos" para o mundo; não estamos olhando para fora, mas, para dentro de nossa própria cabeça. Somos prisioneiros de uma máquina que produz uma realidade virtual. A realidade para nós é tudo o que imaginamos. O mundo de verdade não é triste, mas também não é alegre. O mundo não é difícil, belo, estressante ou amedrontador. O mundo simplesmente é: uma coleção de matéria e energia dançando com a música que chamamos de "leis naturais". Os valores do mundo são produção nossa, produção de nosso cérebro. De qualquer forma, ame o mundo, reconcilie-se com ele.
Disse o professor André Comte-Sponville, "lamente um pouco menos - isso é passado - espere um pouco menos - isso é futuro - e ame um pouco mais - isso é o instante presente", o instante que justifica estarmos aqui agora. Embora a realidade permaneça velada; embora ninguém a conheça de verdade, vamos desempenhar nosso papel de seres humanos e interpretá-lo da melhor maneira possível nesse palco montado por Deus.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica, Faculdade de Engenharia da Unesp Bauru