Última parada. Trem das onze. Ela, fã de Adoniran Barbosa, encontra companhia amorosa. Para ela ele é a esperança acumulada em admiração. Não demora muito, ele a decepciona com uma conversa flácida. 'Tem uma mãe, que não dorme enquanto não chegar.' Seu amor restrito afasta-a.
Admiradora de Cartola deseja rumar a vida. Da boca cansada de afivelar sorrisos planejados, lembranças quentes e macias. Num corpo em oferenda, descobriu o mundo ser um moinho. Sabe que em cada esquina se esvai irreparavelmente um pouco da vida.
Entusiasta do que faz, professora de História, aficionada por Milton Nascimento, ministra aulas com coração de estudante. Na mesma sala de aula, uma Maria, morena muito igual, de olhar rebaixado, com vida cumprida de sol e enxada. Sozinha em sua simplicidade, sua voz preta chora despedida da mãe e um passado árido, numa vida dedicada ao afago da terra, cansada de forjar no trigo o milagre do pão.
Vendedora de piscinas, seguidora de Bauman, garante a felicidade ser líquida. Com alegria, alegria, universitárias, simpatizantes de Caetano Veloso, homenageiam, uma vez mais, ex-vereadora Marielle Franco. Com nada nos bolsos e nas mãos, ensinam-nos: o ideal é seguir vivendo como bandeira solta na amplidão. Carpinteira, com larga experiência em Chico Buarque, procura vaga em construção. Desenhista, ouvinte de Toquinho, dá aulas de aquarela. Garante: com cinco e seis retas é fácil fazer um castelo. Meteorologista, com clima para trabalhar em institutos de pesquisa e companhias energéticas, conhecedora de Elis Regina, alerta sobre as águas de março. Divorciada, professora de Língua Portuguesa, especializada em Mário de Andrade, procura por emprego no ensino infantil. Quer explicar, desde cedo, o porquê de amar ser um verbo intransitivo. Mãe de santo, tiete de Gilberto Gil, oferece serviços pra quem desconhece andar com fé. Segundo ela, a fé não costuma faiá.
Mais que o costumeiro parabéns, respeito, reconhecimento. Às mulheres escravizadas como um dia que afugenta dos pássaros a direção, retendo-os no ar mais tempo do que suas asas suportam. Às mulheres iludidas, cuja esperança foi contrabandeada por promessas urbanas. Às mulheres exploradas de futuros permeáveis tais qual um dia decidido a coar a noite, retirando-lhe o escuro. Às que silenciam o abuso sexual como uma casa com porta emperrada e janela pequena demais para permitir escape. Às que gritam o assédio em estado de chaleira com estoque de vapor. Às incrédulas que riem da devoção poente da ave-maria e do dízimo de paletó expectante. Às inseguras que sonegam restos de paciência chegada. Às inquietas que vestem diálogos de interrogação. Às sossegadas que deitam a preguiça sorrateira como base de suas aventuras. Às curiosas, fãs de Monteiro Lobato, que em tudo colocam o narizinho.