Boa Noite. Respondeu homem de meia idade, negro, ao âncora antes de desligar a TV, apando a luz do barraco de cômodo único. Se deitou. Antes de pegar no sono, que demorou a vir, pelo êxtase ao ver e ouvir aquele que fora o sindicalista mor (depois o maior presidente do Brasil), dos seus tempos mais significativos de sua vida, no ABC paulista, como chão de fábrica na hoje Ford, que partiu que antes fora Ford do Brasil.
O homem meia idade negro, conhecido por Mané Preto, não era tão ingênuo, apesar de mal assinar o nome, também poderia pensar. Então, se virou e pegou a garrafa debaixo da cama, destampou e tomou um profundo gole d´agua ardente, para chamar o sono que não vinha.
Quem sabe em 2022 poderei voltar a sonhar, se lembrando da canção "sei que nada será como antes amanhã", do eterno Milton "Bitúca" Nascimento.
Se lembrou da família que um dia teve, dos filhos que nunca mais tinha visto, se lembrou dos carros que teve, com o incentivo das montadoras, para com os empregados das fábricas. Pensou na casa (Minha Casa Minha Vida) que já teve e nas viagens que pôde fazer, até de avião, para visitar os pais e os avós em Salvador, sua terra natal.
Em flashs confusos, pensou na antiga URSS, a vontade que teve quando jovem sonhador, de seguir para Havana, e já na ilha viver o sonho de Fidel Castro.
Pensou "American way life", "American dreams" e sua grande mentira capitalista, que por fim se resume a tudo para os americanos brancos, e o resto que se f...
Levou novamente a mão no escuro por debaixo da cama e alcançou a garrafa e matou, num gole só, o que restava da bebida.
Dormiu e sonhou com um país mais digno de se viver, e igual para negros, índios, homos, héteros, direitas, esquerdas, homem, mulher...
E já entrava pelas frestas do barraco, os primeiros raios de sol, e os pardais já ensaiavam uma algazarra, inexplicavelmente hoje, um pouco mais contida.
- Mané, acorda Mané Preto, não vai catá latinha hoje, seu preguiçoso?
Forçando a porta frágil, o amigo se deparou com Mané caído, em decúbito dorsal, no chão ao lado da cama, imóvel.
- Alguém chame o Samu, pelo amor de Deus!