Chefinho, eu pedi tanto por sua recuperação. Passei dia e noite concentrado, rezando. Mas você quando encasqueta uma coisa também não dá trégua. Decidiu alçar voo. Cansou dessa patifaria toda que estamos vivendo por aqui. Não tiro sua razão, mas convenhamos, você podia ter tido um pouco mais de paciência. Como vai ser agora?
Quem vai ler pra mim as notícias diárias do Jornal da Cidade de Bauru?
Você sabe, se eu contar ninguém acredita! Quem ligaria todos os dias, inclusive aos feriados, para um velho sem visão só para deixá-lo atualizado das notícias? Só você mesmo, amigo de mais de 50 anos que sabia muito bem o valor que eu sempre dei à informação. Nas segundas, quando não sai o JC, você lia e comentava as notícias trazidas pelas revistas semanais.
O Cid fazia a ligação e logo você assumia o comando, com uma leitura clara e cadenciada. Nesses últimos oito anos, com a visão cada vez mais comprometida, eu pude constatar a força transcendente da nossa amizade.
Confesso que hoje acordei atordoado ainda com a notícia de sua partida no último domingo, 21 de março. E quando chegou perto de meio dia, horário sagrado de sua ligação, senti uma saudade apertada. Era dia de você contar das matérias publicadas pela Veja, porque segunda-feira não tem JC.
Saber do mundo pelos seus olhos e por sua voz mudou muita coisa dentro de mim. Coisas internas mesmo. Sentimentos que trouxeram ainda mais sentido à palavra amizade. Eu ainda não sei como serão os dias sem você. Não está sendo fácil pensar nisso.
A voz embarga, o peito aperta. Mas, você sabe, gente como nós tem a obrigação de seguir em frente com otimismo e esperança. Afinal, vivemos o privilégio de conhecer o verdadeiro sentido do amor amigo. Siga em paz, meu querido amigo. Meu eterno chefinho. Paz e Bem.
O autor é ex-superintendente do HRAC-USP e amigo de mais de 50 anos de Luiz Ferreira Martins.