Mais de um terço dos restaurantes e bares do Brasil fecharam as portas desde a chegada da Covid até fevereiro deste ano, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). A maior parte do setor, 98%, é composta por micro, pequenas e médias empresas, de acordo com a entidade.
Quem sobreviveu passa agora pelo pior momento: mesmo com inovações e delivery, muitos acumularam dívidas, demissões de funcionários e ainda esperam novas medidas de apoio. "No começo da pandemia, as empresas ainda tinham uma gordura para queimar. Hoje acabou tudo", diz Fernando Blower, diretor-executivo da Associação Nacional de Restaurantes (ANR).
Com o avanço do coronavírus, muitos Estados proibiram ou restringiram o atendimento de clientes no salão. Diante desse cenário, negócios que resistiram à pandemia por quase um ano começaram a fechar as portas. Entre eles, o histórico Lá em Casa, em Belém do Pará (PA), comandado pela mesma família por 49 anos. No Rio, o tradicional Cervantes fechou por tempo indeterminado a unidade de Copacabana e, em São Paulo, a lista se avoluma com o Lá da Venda, o bar Genésio e a Casa de Francisca, misto de espaço de shows e restaurante.
Para empresários, entidades e analistas, a onda de fechamentos vai continuar caso não haja apoio dos governos municipal, estadual e federal. A medida mais esperada é a que permite suspender contratos ou reduzir jornada e salário de trabalhadores, com ajuda parcial em dinheiro do governo. De acordo com pesquisa da Abrasel, 78% do segmento diz não ter caixa para os salários de abril.
O delivery, única alternativa de operação para muitas casas neste momento, responde por apenas 30% do faturamento normal de um estabelecimento - e cerca de um terço das casas não têm nenhum nível de delivery, diz a ANR.
O chef Ivan Ralston, 35 anos, do Tujuína, começou a operação de delivery em janeiro, mas diz que a margem é pequena. "O Tuju estava no auge, mas entendi que seria difícil esse tipo de restaurante sobreviver à pandemia. A gente mudava o menu quatro vezes por ano, fazia pesquisas. E também dependia de estrangeiros e pessoas viajando. Então, resolvemos guardar esse projeto", diz. "A gente está fazendo o máximo possível de coisas no espaço que a gente tem. Minha empresa está no modelo mínimo", diz o chef, que teve de demitir 30 funcionários na crise.
Negócios voltados a entrega comandados por chefs ou marcas conhecidas também começaram surgir. Em janeiro, a Cia. Tradicional de Comércio lançou a Devoro, uma plataforma de delivery por aplicativos. O cliente pode escolher entre mais de 70 opções que vieram do menu de casas do grupo, como o bar Astor e a pizzaria Bráz. Os pedidos são preparados em uma cozinha à parte.
"Abrimos o olhar para momentos de consumo alternativo. Pode ser em casa, em viagens, piqueniques. Com a pandemia, as pessoas descobriram outras formas de trazer marcas de restaurante para casa", diz Juliana Fava, 39, diretora de marketing.