O profissional acorda junto com o sol, quando consegue dormir; toma seu café da manhã, com pressa, pensando em como irá encarar mais um dia de consultório, enfermaria e UTI; os doentes estarão evoluindo bem? "Ninguém me ligou essa noite, devem estar estáveis!"
Como irá tratar aqueles pulmões encharcados? E para resolver a perda da função renal? Mudo o doente para pronação ou não? Troco ou não troco os medicamentos? E levar as notícias não muito boas para as famílias e lidar com as perdas? Dar uma notícia de morte é morrer um pouco também.
Engole alguma coisa no almoço e tudo recomeça; vai ao consultório ou ao ambulatório e vai ouvindo as complicações tardias da doença, a chamada Covid longa, como está a coagulação do sangue, já que o risco de trombose permanece e aquela tosse com falta de ar?
Vai passar? Quando?
Antes de voltar para a casa passa no hospital novamente para ver se o que pensou e prescreveu, está funcionando ou não. Vê com imensa alegria as melhoras e com um desânimo momentâneo os que estão cada vez piores.
Chega em casa arrebentado física e mentalmente, com pouca vontade de conversar com os familiares, mas ainda arruma um tempo para ler alguns artigos novos e novos medicamentos e protocolos utilizados no mundo.
Por fim, entra nas redes sociais e lê postagens de algumas pessoas, que aquele tratamento implantado depois de ler, discutir e prescrever é chamado de negacionista, genocida, charlatão e curandeirismo por pessoas que nunca leram um artigo científico na vida, e o último doente que viu foi quando se olhou no espelho há pouco... e pedem empatia.
É inacreditável, é inconcebível.
Nota. Embora assista doentes de Covid no meu dia a dia, essa não é a minha rotina, mas ao ler essas barbaridades sinto uma enorme tristeza e presto minha solidariedade a esses colegas.
Não dá para falar em ciência com quem não sabe o que é ciência. Procurem ler sobre o Protocolo de Helsinki e os direitos e deveres dos médicos, no código de ética.
O autor é médico otorrinolaringologista