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A Covid vista por dentro

Helder Fernandes Aguiar
| Tempo de leitura: 2 min

O profissional acorda junto com o sol, quando consegue dormir; toma seu café da manhã, com pressa, pensando em como irá encarar mais um dia de consultório, enfermaria e UTI; os doentes estarão evoluindo bem? "Ninguém me ligou essa noite, devem estar estáveis!"

Como irá tratar aqueles pulmões encharcados? E para resolver a perda da função renal? Mudo o doente para pronação ou não? Troco ou não troco os medicamentos? E levar as notícias não muito boas para as famílias e lidar com as perdas? Dar uma notícia de morte é morrer um pouco também.

Engole alguma coisa no almoço e tudo recomeça; vai ao consultório ou ao ambulatório e vai ouvindo as complicações tardias da doença, a chamada Covid longa, como está a coagulação do sangue, já que o risco de trombose permanece e aquela tosse com falta de ar?

Vai passar? Quando?

Antes de voltar para a casa passa no hospital novamente para ver se o que pensou e prescreveu, está funcionando ou não. Vê com imensa alegria as melhoras e com um desânimo momentâneo os que estão cada vez piores.

Chega em casa arrebentado física e mentalmente, com pouca vontade de conversar com os familiares, mas ainda arruma um tempo para ler alguns artigos novos e novos medicamentos e protocolos utilizados no mundo.

Por fim, entra nas redes sociais e lê postagens de algumas pessoas, que aquele tratamento implantado depois de ler, discutir e prescrever é chamado de negacionista, genocida, charlatão e curandeirismo por pessoas que nunca leram um artigo científico na vida, e o último doente que viu foi quando se olhou no espelho há pouco... e pedem empatia.

É inacreditável, é inconcebível.

Nota. Embora assista doentes de Covid no meu dia a dia, essa não é a minha rotina, mas ao ler essas barbaridades sinto uma enorme tristeza e presto minha solidariedade a esses colegas.

Não dá para falar em ciência com quem não sabe o que é ciência. Procurem ler sobre o Protocolo de Helsinki e os direitos e deveres dos médicos, no código de ética.

O autor é médico otorrinolaringologista

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