Seu Oriovaldo era o que se poderia chamar de sujeito polivalente, pois fazia de tudo e mais um pouco. Muitas vezes tudo ao mesmo tempo. Inesquecível os tempos quando circulava com sua Lambreta pelas ruas da cidade, carregando sempre uma maleta de pequenos reparos, pois consertava de tudo. Era o que se chama hoje de "Marido de Aluguel".
Pequenos reparos era com ele mesmo e assim cortava Bauru de norte a sul. Inquebrantável na alegria, junto da maleta na moto carregava outro invólucro, com todo cuidado e esmero o violino. Eu sei que ele tocava nas igrejas da cidade, de várias crenças, pois ele não era dado a preconceitos. O importante era ser convidado para colocar seu instrumento em funcionamento e daí, parava tudo, a lambreta no meio da rua e se punha a flanar aquela vara nas cordas sempre afiadas.
Fazia a alegria por onde passava. Eu o conheci assim e essa é a maior lembrança que carrego dele, o de um original músico destas plagas. Certa feita, o encontrei na Feira do Rolo e ele me mostrou seu novo telefone celular e como o acondicionava junto da cinta. Era um patacão, parecida um tijolo. Sim, os primeiros celulares eram grandes e pesados e só serviam para ligar e atender telefonemas, nada mais. Ele criou um aparato para envolver o aparelho e protegê-lo de quedas, esbarrões e mesmo ficar solto no bolso e se perder num solavanco da estrada.
Sua importância e generosidade sempre saltavam aos olhos de todos que tiveram o prazer de conhecê-lo. Muitos o chamavam de "Sete Ofícios", pois batia nas onze, jogava em todas as posições, ou seja, fazia de tudo um pouco. A última vez que o via ele estava também numa manhã dominical na Feira do Rolo - ponto de encontro magistral desta aldeia -, creio eu, trazido por alguém, algum parente próximo, talvez a filha, que o soltou por ali e estava de longe o vigiando, tomando conta, cuidando da preciosidade. Ontem ele se foi, vencido pelo tempo. Fez muito bom uso de sua passagem por aqui. Ele, a lambreta e seu violino, dono de "sete ofícios", deixa muita saudade. Desses dignificando as ruas bauruenses.