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Você não vai ler este texto, porque está com pressa...

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

O WhatsApp lançou, nesta última semana, uma funcionalidade muito comemorada. Agora, podemos acelerar, em até duas vezes, os áudios que nos são enviados. E que atire a primeira pedra quem nunca sonhou em gastar apenas metade do tempo para ouvir aquele áudio "gigante" - praticamente um podcast - que o amigo mandou narrando toda a saga de um fim de namoro.

Eu confesso que também celebrei a nova ferramenta do aplicativo de mensagens e a usei sem moderação nesses primeiros dias. E, inclusive, é muito engraçado ver todas aquelas vozinhas aceleradas, falando como se fosse aquele aviso dos comerciais de medicamentos na TV ("Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado"). Foi, então, que um áudio específico me fez repensar o quão insólita pode ser essa nova funcionalidade. Foi um áudio simples de 30 segundos enviado pela minha mãe.

Ao ouvir aquela curta mensagem de forma acelerada, parei para refletir o quão absurdo é apressar as palavras de alguém que eu tanto amo. Como é egoísta, no mínimo, eu não ceder os 30 segundos (ou 30 horas, que sejam!) para ouvir o que ela dedicou 30 segundos falando.

Dizem, por aí, que a tecnologia deixou o mundo muito veloz. Não é uma mentira. Mas, é uma meia verdade. A velocidade não é o principal problema. O que tem consumido nossa relação com o outro - e com nós mesmos - é a pressa. O sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017) alertou sobre como passamos a viver em um mundo "líquido". O polonês discorreu, com maestria, o fato de termos nos acostumado a tratar a todos e a tudo - inclusive o amor - de forma quase que casual. Pois é. Toda essa "liquidez" e casualidade, agora, podem ser aceleradas em até duas vezes. Podemos, em simples cliques, encurtar pela metade o que outro tem a dizer.

Ainda nesta semana, dois grande amigos se despediram de seus familiares. Primeiro, o Miguel Daré perdeu o irmão para esse maldito vírus, que, por inércia na aquisição de vacinas, tem matado tanta gente boa. Três dias depois, o Marquinho Libório deu adeus ao seu pai, vítima do também maldito crescimento desenfreado de células, conhecido como câncer.

Em ambos os casos, o que os consolava em meio a tanta dor era o simples fato de eles terem aproveitado cada minuto ao lado dos que partiram. Posso afirmar, sem medo de errar, que tanto o Miguel quanto o Marquinho nunca aceleraram a convivência com o irmão e o pai. Sem egoísmo de tempo, eles saborearam - e amaram - cada segundo daquelas relações.

Provavelmente, seja uma divagação muito profunda para uma simples funcionalidade de WhatsApp. Provavelmente, você nem leu até aqui, justamente porque estava com pressa.

Porém, se ainda está comigo, finalizo com uma frase eternizada pelo escritor português José Saramago (1922-2010): "Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo".

Não tenhamos pressa para não perdermos o tempo que nos resta agora conosco e com os nossos. Agora. Sem pressa. E sem nunca se esquecer de que, em dias onde a morte se tornou algo tão presente, o nosso maior presente é, sem dúvida alguma, o presente.

O autor é editor do JC, jornalista da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia.

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