Tribuna do Leitor

Achillina restauraria e protegeria nosso patrimônio ferroviário

Fabio Paride Pallota
| Tempo de leitura: 3 min

A italiana naturalizada brasileira Achillina Bo, mais tarde Bardi, foi uma das mais importantes arquitetas do Brasil e uma das mais importantes educadoras também. Homenageada pela Bienal de Arquitetura de Veneza pelo conjunto da sua obra, ela foi também designer, editora, curadora e, em especial, desveladora da alma brasileira que entendeu como ninguém.

Encantada com a resiliência do povo brasileiro que transformava aquilo que ninguém mais queria em utensílios para a sobrevivência ela sempre valorizou a produção cultural do povo brasileiro.

Em vários momentos da sua carreira como arquiteta e diretora de museus pelo Brasil pensava essas instituições em primeiro lugar como centros de educação onde prepararia futuros profissionais que entendessem a alma brasileira e fizessem que realizássemos a passagem do pré-artesanato e do artesanato para o designer industrial respeitando a nossa múltipla herança cultural.

Agiu assim como diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia, na restauração do Solar do Unhão onde tinha projetos, nunca saídos do papel por falta de interesse, de criar o Museu de Arte Popular (MAP) e o Centro de Estudos e Trabalho Artesanal (CETA). Ainda quando da restauração do Solar do Unhão em Salvador deu asas a sua visão humanista ao conseguir que crianças pobres que caçavam calangos/lagartos no telhado da obra em restauração possivelmente para alimentar suas famílias, entrassem no Solar e acompanhados por ela e fizessem vários "tours" e conhecessem a importância e a beleza da arte das mãos do povo brasileiro. As "caçadas" diminuíram e aquelas crianças começaram a frequentar o Solar do Unhão por puro gosto nascido pelas mãos daquela ítalo/brasileira que muitas vezes por inveja era tratada com xenofobia como se seu espírito não fosse mais brasileiro do que os imitadores da cultura europeia.

Hoje se viva fosse e conhecesse o nosso Patrimônio Cultural Industrial Ferroviário, com certeza tentaria convencer a todos da importância da conservação e restauração dessa herança, para que beneficiasse toda a cidade e seus cidadãos.

Faria questão de assim proceder para mostrar a nossa sociedade a importância dos operários das nossas oficinas que sem saber ler ou escrever montavam locomotivas importadas dos EUA, ou ainda marceneiros que frequentado Liceus de Artes e Ofício ou não, enfeitaram vagões da Administração, criaram móveis e utensílios, enfim faziam que tudo funcionasse para que a ferrovia pudesse cumprir seu o seu destino de transportar mercadorias e passageiros.

Restauraria e conservaria estações de embarque e desembarque urbanas e rurais para que todos pudessem perceber a importância da nossa memória afetiva. Não se esqueceria de criar espaços em que os habitantes originários, os kaingang, fossem lembrados, homenageados e pranteados pelo seu triste fim nas mãos dos colonos ditos pioneiros.

Voltando sempre ao seu espírito de educadora, mesmo sendo arquiteta renomada que se tornou, daria destaque a grandiosa Estação Central em Art Deco, como Secretaria da Cultura para simbolicamente lembrar que o futuro não se constrói apagando o passado e que Bauru poderia se tornar uma 'Cidade Educadora', a partir da valorização dessa preciosa herança, conservada, restaurada e colocada a serviço de todos os bauruenses. Quais bauruenses de todos as condições sociais conseguem enxergar o nosso Patrimônio Cultural Material Ferroviário como ela enxergaria? Que sua vontade de Brasil encha todos os corações.

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