Regras para a família em casa, uso de ferramentas do celular, busca por grupos de apoio e até promessa. Para colocar limites no uso de tecnologias e aplacar a ansiedade, usuários dependentes do mundo digital e familiares adotam diferentes estratégias. Vale tudo, até aposta para ver quem consegue passar 24 horas longe da Internet.
A psicóloga Paula Penteado, 50 anos, mãe de três filhos de 20, 18 e 7 anos, estabeleceu regras para uso de tecnologias. Na hora das refeições, mexer em aparelhos eletrônicos nem pensar. E a filha caçula, Laura, só pode assistir a vídeos no tablet depois de jantar e do banho, por 45 minutos.
A psicóloga nem sempre foi rígida quanto ao uso das tecnologias. Quando os dois filhos mais velhos eram pequenos, colocar limites era mais difícil, segundo ela. Brigas eram constantes. A preocupação maior era o videogame. "A gente não sabia lidar na época, não tinha tanta informação disponível. Hoje, sabemos o quanto o excesso faz mal", afirma.
No ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o vício em jogos online como distúrbio mental. Foi por causa do vício do filho em jogos online que Maria (nome fictício) procurou o Grupo de Dependências Tecnológicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).
O filho, no início da adolescência, costumava passar muitas horas na frente do computador e tinha ataques de fúria quando ela tentava restringir o uso. Nas férias, por exemplo, chegava a passar um dia inteiro imerso em jogos. Começou a apresentar mau rendimento na escola.
"[As pessoas não costumam perceber o vício] porque é muito cômodo o filho ficar quietinho lá no computador sem amolar ninguém, está seguro dentro de casa. A questão é: até que ponto vai ficar de frente para a tela sem curtir a vida, tomar sol, sair com amigos, jogar bola?"
Buscou uma psicóloga, mas não deu certo. Em meio a pesquisas sobre o assunto, um amigo indicou o grupo na USP. O lugar oferece atendimento e orientação a pacientes ou pais dos que desenvolveram dependência tecnológica.
A experiência de ouvir outros pais falando sobre suas histórias e erros e acertos foi um divisor de águas para Melina. Os encontros são a cada 15 dias e incluem pessoas de diferentes idades. Ela os frequentou por cerca de dois anos. A solução encontrada para conter o filho foi encher a rotina dele com atividades físicas e na escola.
Hoje o rapaz tem 16 anos. Ainda joga, mas menos do que antes. Só não pode ir mal na escola. "São os pais que devem colocar ordem. Quem paga a internet somos nós. Mas, quando você está dentro da situação, tem medo da reação do filho", diz ela.