Tribuna do Leitor

Professor João Francisco Tidei de Lima: ao mestre com todo carinho

Silvio Durante - Arquiteto, professor de História e Filosofia e eterno aluno do professor João Francisco Tidei de Lima.
| Tempo de leitura: 4 min

Com grande pesar recebemos a notícia do falecimento do professor João Francisco Tidei de Lima, ocorrida no último 07/06. Seus ex-alunos do curso de História da antiga USC (hoje Unisagrado) lamentaram profundamente a partida deste grande mestre que muito contribuiu para a formação de diversos profissionais do ensino e da pesquisa das Ciências Humanas.

Mestre, aliás, era seu título acadêmico obtido com a brilhante dissertação "A Ocupação da Terra e a Destruição dos Indíos na região de Bauru", de 1978, onde investigou as origens do conflito branco-indígena na nossa região, no período de 1850 a 1910 identificado como conseqüência do avanço do Capitalismo e como a ação do Estado privilegiava a expansão econômica, cuja efetivação dependia da expropriação dos índios, encarados como obstáculos a serem removidos.

A vida acadêmica do professor João é tão vasta quanto seu carisma. É conhecido por todos seus esforços para a viabilização da Unesp em nossa cidade e sua contribuição para a instalação do Centro de Memória Regional Unesp - R.F.F.S.A, hoje no Museu Ferroviário de Bauru. Apaixonado pela temática ferroviária, foi orientador e consultor de dezenas de trabalhos acadêmicos cuja pesquisa envolvia a estrada de ferro Noroeste do Brasil. Sempre nos dizia que "...o Brasil precisa voltar aos trilhos!", referindo-se a retomada das ferrovias como quesito indutor para o desenvolvimento. "Um país continental como o nosso não pode ser refém do modal rodoviário", disse ele em 2018 numa palestra sobre ferrovias para os alunos de baixa renda que frequentavam o Cursinho Popular Acesso Hip-Hop, juntamente com outro grande defensor das ferrovias, o sindicalista Roque Ferreira, de quem era amigo.

Seu vasto conhecimento teórico e sua capacidade de se lembrar de nomes e datas fazia-nos pensar que deveria haver um computador em sua cabeça, embora ele dizia nunca ter familiaridade com esta máquina eletrônica. Por falar nisso, ele adorava mesmo era fazer suas notas de aulas e roteiros de estudos em uma Máquina de Escrever.

João adorava indicar livros aos alunos, principalmente aqueles com alto rigor acadêmico. Foi com ele que conhecemos autores importantes como o inglês Eric Hobsbawm e sua "Era dos Extremos" (Companhia da Letras, 1994), este último bibliografia básica de suas aulas de História Contemporânea. Nas suas aulas de História Moderna, também conhecemos o monumental "Capitalismo e Escravidão" (Ed.Americana, 1964) de Eric Williams onde se examina a gênese do capitalismo sob o sangue do povo africano e indígena americano. E como não se lembrar de suas aulas de Teoria da História, cujo livro base dos seminários era nada menos que "História: Análise Do Passado E Projeto Social" (EDUSC, 1997) do catalão Josep Fontana, que trazia uma crítica severa à historiografia descomprometida com as lutas sociais do nosso tempo, assim como na crítica à ideia de que a humanidade tem um único e inexorável caminho - o do capitalismo gestado na Europa Ocidental.

João amava futebol e não raro era visto conversando com seus alunos sobre este esporte, principalmente nos dias que entrava em campo seu time do coração, o São Paulo! Também amava cinema e sempre tinha um bom filme sobre qualquer tema para indicar. Seus alunos devem se lembrar das aulas odne era projetado o belíssimo "O Homem que não vendeu a sua alma" (UK, 1966), que se passa na época de Henrique VIII da Inglaterra e narra a história do filósofo Thomas Morus, autor do livro "Utopia", onde descreve uma ilha fictícia do qual exista perfeita justiça social.

Alias o próprio João Francisco, tal qual Morus, era um homem que não vendeu sua alma. Manteve-se fiel a seus princípios e ideais políticos, sempre direcionados a posicionamentos críticos às injustiças sociais, defensor da democracia e entusiasta de um projeto de desenvolvimento soberano para o Brasil. É notória suas contribuições para a Comissão da Verdade de Bauru "Irmãos Petit", que atestam seu compromisso de aliar a pesquisa histórica com compromisso social e juntamente com os advogados Gilberto Truijo e Arthur Monteiro, a psicóloga Orlene Daré, o professor Clodoaldo, e o capitão reformado Carlos Pittoli, denunciaram os crimes da Ditadura Civil-Militar na cidade de Bauru.

Fica registrado nosso carinho aos seus familiares. Ao seu irmão Antônio. Um grande abraço à senhora sua esposa dona Nadir e seus filhos Carlos e Verena, família querida que sempre nos acolhia cordialmente em sua residência quando nos reuníamos com o professor João. Inesquecível Mestre que merece não apenas todo o carinho, mas também todas as honras da História.

Comentários

Comentários