"A banda" foi a primeira música do Chico que ouvi. Tinha então tinha seis anos de idade e, na varanda da casa da minha avó, aquela canção, repleta de singeleza, me remetia para os finais de semana na praça da cidade, onde a tradicional bandinha interiorana reunia grande parte da população, ainda distante dos aparelhos de televisão.
Quando tinha treze anos, aparece em casa o disco "Meus caros amigos", primeiro dos discos do Chico que adquirira, e que no futuro iria ajudar a compor uma invejável coleção de vinis, que conservo com orgulho. Naquele vinil, muitas canções inesquecíveis: "O que será? (A flor da Terra)", "Mulheres de Atenas", "Olhos nos olhos", "Meu caro amigo", entre outras, que a agulha do estéreo, embora extenuada, não parou de tocar.
E assim, Chico foi fazendo parte da minha vida e, o anúncio do lançamento de cada novo disco era uma aguardada e ansiosa espera. No final de 1978, quando a ditadura já começava a se exaurir lançou Chico novo disco, com apenas seu nome na capa, com algumas de suas mais lindas canções. Entre elas, lá estava "Apesar de você", música que havia sido liberada, depois proibida e, finalmente, definitivamente liberada pela censura federal. Lembro que juntamente com um querido amigo também chicófilo, Gilvan Ribeiro, passamos a última noite do ano, bêbados, cantando-a pelas ruas, esperando a chegada do novo ano e das possibilidades de um novo país que se avizinhava, "amanhã seria um novo dia". E no ano seguinte, de fato, com a promulgação da anistia, centenas de brasileiros retornaram do exílio, ampliando o caminho para a democracia.
Pelo Chico fizemos, eu e outro amigo chicófilo, Paulo Diniz, um circuito muito louco, com muito lança perfume, para assistir ao show, no Morumbi, "Canta Brasil", em 1982, quando Chico subiu ao palco com os Trapalhões para cantar "Piruetas".
É verdade que esta paixão teve seu momento de rusga. No final de 1983 iniciou-se, em todo o país, uma imensa campanha popular pela "Diretas Já!", exigindo eleições diretas para presidente da República. Milhões de pessoas lotaram as ruas. Chico, como outros artistas, participou ativamente, falando e cantando na maioria dos comícios pelo Brasil afora. Porém, o projeto das Diretas foi rejeitado pelo Congresso Nacional e, parcela das pessoas, entendia que era necessária a continuidade da campanha, enquanto outras apostavam derrotar a ditadura, participando da eleição indireta (sem o voto popular, pelo Congresso Nacional), com a candidatura oposicionista de Tancredo Neves, entre eles Chico. "Rompi" com meu ídolo e até me desfiz de uma camiseta com a sua foto estampada.
Mas paixões antigas não se desfazem tão facilmente e logo estava novamente com seus vinis debaixo do braço ou na vitrola a girar sem parar. E no disco dele de 1984, entre tantas músicas marcantes, uma pautou o ritmo dos novos tempos, de ventos democráticos: "Vai passar".
Daí pra frente a paixão e a admiração só fez crescer, seja com o esplendoroso compositor, poeta e cantor de letras maravilhosas e melodias primorosas; seja pelo ser que nunca abandonou as causas e os sentimentos populares: desfilando como enredo da Mangueira, participando das campanhas políticas de esquerda, de combate à fome, de solidariedade às causas nobres, sempre ao lado daqueles retratados em suas músicas, os mambembes, os pivetes, os guris, os barões famintos, os napoleões retintos, os pigmeus do bulevar e outros tantos párias desta sociedade injusta e cruel.
E agora, quando paira no ar, depois de tantos anos de esperanças perdidas, uma nova e tenebrosa possibilidade de vermos o país naufragar nos caminhos do obscurantismo, lá está Chico novamente ao lado do povo, com seu eterno sorriso juvenil, sua inteligência rara, sua cultura preciosa, a costumeira solidariedade e, para ser plenamente sincero, com seus belos olhos verdes quase oitentões, a encantar velhas e novas gerações, do lado certo da história, se misturando às milhares de pessoas que no Brasil todo foram às ruas protestar contra o atual governo genocida. E foi assim, no meio do povo, num ato pelo fim deste governo genocida que Chico comemorou seus 77 anos de vida.
Vida longa ao grande Chico iluminado!