Cultura

Você é 'cringe'?

Mariana Arrudas
| Tempo de leitura: 3 min

A Internet virou palco, nos últimos dias, de um embate entre millennials e Geração Z em torno de hábitos como tomar café da manhã, vestir calças skinny, usar Facebook e falar termos como "boleto". No centro da disputa está a palavra "cringe", sinônimo de mico ou "vergonha alheia".

De um lado, os millennials, nascidos entre 1981 e 1995, e que mantêm, em sua maioria, os hábitos citados acima. Do outro, a Geração Z, nascidos de 1996 a 2010, e que classificam tudo isso como cringe.

A disputa, que já rendeu uma porção de memes, começou com um tuíte da estudante de psicologia e criadora de conteúdo Carol Rocha, 33 anos, conhecida também como @tchulim, que perguntava o que os jovens da Geração Z achavam cringe nos millennials. "O cringe é o que nós achávamos cafona dos nossos pais", compara.

A ideia de fazer o tuíte, segundo ela, surgiu da reflexão sobre o público de seu podcast, "Imagina Juntas". Ela, que é millennial, afirma que sempre pesquisou sobre gerações e que, apesar de seu programa focar nos millennials, ela queria ouvir o público da Geração Z. "Queria saber o que eles achavam tão vergonhoso", diz.

A palavra cringe já estabelecia o conflito entre os grupos. O termo em inglês, apesar de existir há certo tempo e constar em dicionário, teve uma explosão em seu uso recentemente. Seu significado, que inclui vergonha e constrangimento, é usado agora, de maneira geral como "vergonha alheia".

Para a mestre em Comunicação e Semiótica Renata Bianchi, 45 anos, não foi à toa que essa movimentação e o choque surgiram. "São linguagens e falamos de como as tribos se encontram da melhor forma", explica a integrante da Geração X, formada pelos nascidos de 1965 a 1980. "Quando minha mãe falava de um cara que era lindo, ela chamava de broto", relembra. "Eu já falo que ele é lindo." Até a palavra shippar mostra a evolução das gerações. "O shippar vem da era do chip, o chip conecta", explica. "Isso acontece por causa do mundo imerso de tecnologia que a Geração Z está."

Fernanda Teles, 23 anos, estudante de jornalismo e Geração Z, conta que já conhecia a palavra, mas nunca havia usado. "Vi a galera usando muito essa palavra no Twitter e acabei entendendo o que ela significava, mas não era do meu vocabulário. Me senti extremamente velha e desconectada da minha própria geração", afirma sobre a atual disputa de gerações, apesar de sempre ter se considerado parte da Geração Z por sua relação com a Internet e com as redes sociais.

"Quando eu vi essas listas, pensei: 'não estou mais na minha própria geração?'", completa Teles. Para a estudante, achar cringe atitudes como tomar café da manhã, amar filmes da Disney e gostar de astrologia tem mais a ver com o estilo de vida do que com a questão geracional.

Carol Rocha explica ser natural ter pessoas que se sintam perdidas em sua geração. "Temos as entre-gerações, que ficam em um limbo. Entre os millennials e a Geração Z tem os zenialls", comenta sobre as pessoas que são classificadas como Z, mas se identifica com alguns costumes da geração anterior.

Segundo o psicólogo e professor no Instituto de Psicologia da USP, Rogério Lerner, o conflito de gerações é comum na história da humanidade e acontece devido às renovações naturais do mundo. "Esse embate tem a função de testar o grau de adaptação daqueles que estiverem em conflito.'

Comentários

Comentários