O maior atleta paralímpico do Brasil encerrou a carreira. Daniel Dias nadou sua última prova nos Jogos de Tóquio, a final dos 50m livre da classe S5 (atletas com má-formação congênita ou amputados) e chegou em 4º lugar, atrás de três chineses. Ele se despede com 33 anos, com status de ícone paralímpico e participação em quatro Paralimpíadas.
Daniel não teve uma boa saída, mas se recuperou rapidamente e gradualmente foi ultrapassando os competidores - exceto os chineses. Daniel fechou a prova com o tempo de 32s12. O medalhista de ouro foi Tao Zheng (30s31), que quebrou o recorde paralímpico, Weiyi Yuan foi prata (31s11) e Lichan Wang chegou em terceiro (31s35).
"Acabou, mas eu estou feliz. Só tenho de agradecer a Deus, louvado seja Ele. Deus me deu infinitamente mais do que eu pedi, se escrevesse não seria tão perfeito como foi. E agradecer à minha família. Cada braçada é para eles. Papai está chegando em casa", disse Daniel, emocionado.
Daniel tem 27 medalhas paralímpicas no currículo, sendo 14 de ouro, sete de prata e seis de bronze. Em Mundiais, tem 40 pódios, sendo 31 de ouro, e em Jogos Parapan-Americanos, são 33 medalhas, todas de ouro.
Em Tóquio, Daniel aumentou a coleção de pódios com mais três bronzes: nos 100m livre S5, nos 200m livre S5 e no revezamento 4x50m livre misto 20 pontos, que junta atletas de classes diferentes, mas cuja soma numérica tem que ser 20. Além disso, disputou as finais e acabou sem medalha em mais duas provas: foi sexto no 50m peito da classe S5 e quinto nos 50m costas S5.
No último ciclo olímpico, a natação passou por uma reclassificação e atletas que antes eram da S6 acabaram "caindo" para a S5. Dessa forma, Daniel teve que entrar em disputas contra competidores com deficiências menos severas, que dominaram as provas com grande vantagem para quem já era da S5.
Em Tóquio, Daniel demonstrou que isso o fez duvidar se conseguiria mais conquistas. Após alcançar segunda medalha de bronze em Tóquio, Dias disse ter tirado um peso das costas com a conquista da primeira, que havia acontecido no dia anterior.
INSPIRAÇÃO
Daniel inspirou muitos outros a se tornarem nadadores. Ele mesmo iniciou no esporte dessa maneira: com má-formação congênita nos membros superiores e na perna direita, começou a competir em 2006, inspirado em Clodoaldo Silva, e bateu todos os recordes possíveis.
"É difícil de falar. É uma vida dedicada a isso, e quando eu começo a refletir, enfim, ter todas essas conquistas e representar essa bandeira é uma honra, é uma alegria. É uma emoção. Nada de tristeza. Vou ficar com muita saudade, mas eu saio daqui com dever cumprido, que valeu a pena. Para cima de tudo mostrar o valor do ser humano, do que a pessoa é capaz, e que uma deficiência não define quem somos", disse Daniel.
Fora das piscinas, Daniel Dias deve se dedicar mais ao Instituto Daniel Dias, criado em 2014 para fomentar o esporte paralímpico brasileiro, e também à atuação nos bastidores do esporte - ele é membro da Assembleia Geral do Comitê Paralímpico Brasileiro e na Comissão Nacional de Atletas.