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Poder ou morte!

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Se com osso na boca, melhor guardar do bicho distância canina. Por motivos diferentes, recomenda-se o mesmo cuidado com o bicho homem, estando ele com o osso ameaçado. Rosnando, ele escancara os caninos em discursos inflamados de espada rasgando o ar: "É poder ou morte!" Poder é osso que a boca não larga. Quem não o tem, saliva por tê-lo. Quem o teve, quer de novo mordê-lo com saudade. Afrodisíaco, ele excita, revigora e rejuvenesce. Sozinho, ele nunca nos deixa, foi o que disse George Danton: "Manjares deliciosos, bebidas maravilhosas, as mulheres dos nossos sonhos, eis o que o poder conquista quando você o agarra". Com tanta recompensa assim, quem não quer ser rei em Pasárgada?

O poder não escolhe data tampouco lugar. Está na política, na religião, nas empresas, até mesmo na vida conjugal. Mas sempre no lugar de cima, de onde possa o outro vigiar e comandar. Mexe com a bioquímica do cérebro, estimula a serotonina, otimiza a autoestima, tornando-nos mais confiantes, mais felizes, enfim, com o que somos. Como se comprazem os homens poderosos com a vassalagem que lhes é prestada! Tapetes felpudos são estendidos convidando-lhes os pés, quando não, o próprio corpo, estirado no chão, oferece-lhes o caminho da ridícula bajulação. Sobejam os lambedores de sacos. Um problema, porque sempre há um, ou mais. Como tudo, o poder é passageiro. São muitas as histórias de ex-celebridades que escolheram as drogas, o abandono das sarjetas, até mesmo o suicídio, por não suportarem viver distante das manchetes e das luzes da ribalta. O que um osso perdido não faz? Irmão da vaidade, o poder é coisa humana, vírus sem vacina, genético. Pascal disse "todos vivem a se gabar e a procurar admiradores e mesmo os filósofos desejam tê-lo". Dessa embriagante cachaça quem escapa?

Todavia, o poder há de ter limites éticos. Sejam as interdições morais, legais, consuetudinárias, alguma barreira precisa dizer à barriga que daquele ponto ela não pode passar. Um liberal dirá que tudo é permitido, exceto o que for proibido. Um legalista, o oposto: tudo é proibido, exceto o que for permitido. A situação que nos tem regido, nestes tempos famintos de poder, é de que tudo que for proibido deve ser permitido. Afinal, de que valem leis, princípios éticos, mandamentos religiosos, quando a barriga ronca de fome e o osso está ameaçado? Não espere do bicho elegância em mesa de osso incerto e pouco feijão. O poder tem a caneta, assim ele se anuncia, para escrever exatamente o que a fome dita. Não sendo bastante caneta e tinta, escreve-se com fuzil.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.

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