Serapião era um velho mendigo que perambulava pelas ruas da cidade. Ao seu lado, o fiel escudeiro, um vira-lata branco e preto que atendia pelo nome de Malhado. O mendigo era conhecido como um homem bom que perdera a razão, a família, os amigos e até a identidade.
Certo dia, um homem veio conversar com o velho mendigo, iniciou a conversa falando do malhado, disse-lhe que a amizade começou quando lhe deu um pedaço de pão, ele agradeceu, abanando o rabo e nunca mais o largou. 'Ele me vigia quando estou dormindo, ninguém pode chegar perto que ele late e ataca, eu o vigio para que outros cachorros não o incomodem'.
Continuando a conversa, o homem lhe fez uma nova pergunta: Serapião, você tem algum desejo de vida? Sim, respondeu ele, tenho vontade de comer um cachorro-quente, daqueles que têm na lanchonete da esquina. Só isso? Indagou. O homem saiu, comprou um cachorro-quente e o entregou ao velho. Ele arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu a dádiva e, em seguida, tirou a salsicha, deu para o malhado e comeu o pão com os temperos.
O homem não entendeu aquele gesto, pois imaginava que a salsicha era o melhor pedaço: por que você deu para o malhado? Com a boca cheia, respondeu: para o melhor amigo o melhor pedaço. E continuou comendo, alegre e satisfeito. O homem, ao se despedir, passou a mão na cabeça do cão e saiu pensando com seus botões: aprendi alguma coisa hoje, como é bom ter amigos, pessoas em quem possamos confiar, jamais esquecerei a sabedoria deste mendigo. E você, que parte tem reservado para os seus amigos?