Economia & Negócios

Steve Jobs seria cancelado em 2021?

Guilherme Guerra
| Tempo de leitura: 2 min

Neste mês, a morte de Steve Jobs, fundador da Apple, completou 10 anos. Considerado um gênio por muitos, o pai do iPhone era uma figura de extremos: por um lado, sua capacidade criativa causou grandes saltos tecnológicos. Por outro, sua personalidade costumava machucar pessoas ao seu redor. Ele era obcecado pelos detalhes de suas criações, mas chegava a mentir, a blefar ou a ser abusivo com funcionários, amigos e parentes para conseguir as coisas como queria.

Vítima de um câncer no pâncreas aos 55 anos, Jobs não testemunhou um desdobramento da popularização dos smartphones na última década: a cultura do cancelamento nas redes sociais. Mas, com tantas características polarizadoras e um contêiner de histórias pessoais e profissionais pesadas, ele seria um forte candidato a ser cancelado nos dias atuais.

Temperamental, ele costumava se justificar da seguinte maneira: "Eu sou assim". Mas não era só a língua afiada que poderia tornar Jobs um alvo dos "tribunais da Internet". Ele rejeitou publicamente a filha, afastou a Apple de questões políticas e sociais, minimizou condições trabalhistas na China e fez ameaças e acusações a rivais como Microsoft e Google.

"Steve Jobs seria cancelado em 2021. E acho que ele adoraria isso", afirma Fábio Gandour, que liderou por quase dez anos o laboratório de pesquisas da IBM no Brasil. "Ser cancelado significaria um respeito ao tempo dele, que seria usado para outras coisas", diz o pesquisador, que costuma lembrar de um encontro acidental que teve, no começo dos anos 2000, com Jobs no banheiro da Apple, na Califórnia ("foi impossível um aperto de mãos", lembra).

Ignorar a opinião alheia talvez fosse um dos pontos fortes do executivo, que, ao contrário de muitos colegas em empresas rivais, orgulhava-se de não aplicar pesquisas de mercado para entender o que queriam os clientes. Uma de suas frases mais famosas é: "Os consumidores não sabem o que querem até que mostremos a eles".

Ser ignorante à opinião alheia poderia não fazer tanta diferença para Jobs em termos pessoais. Mas seus comportamentos poderiam reverberar na Apple, criada em 1976. Para Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), da "porta da Apple para dentro", o cancelamento poderia tornar os funcionários da empresa "muito mais vocais" quanto a abusos e práticas no ambiente de trabalho.

Já da porta para fora, a figura de Jobs, tão conhecida como a da Apple, poderia ser fustigada pela opinião pública. "É de se esperar que, numa cultura do cancelamento, que explodiu muito depois do falecimento de Jobs, você também iria ter situações em que as pessoas poderiam apontar para o boicote o produto da empresa", explica Souza.

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