Reuniões, pastas, pautas, contratos, telefonemas, mensagens, e-mails, viagens, visitas, atendimentos - já lhe digo - responsabilidades inadiáveis de ser dono. Quando a manhã boceja, meus executivos bebem o café quente das negociações em apertos de mão favoráveis. Em qualquer lugar da empresa esgarçam minha autoridade me chamando de senhor pra cá, senhor pra lá. Pudera, sou proprietário da atenção e da disposição de todos. Saber que meus funcionários me temem; que por onde passo há um silêncio visitante; que todos simulam felicidade com minha presença, com meu êxito. Bajulam meu ego com saudações de um carinho premeditado; alguns - acredite - abraçam com palavras minha família rica, bem de vida. Cretinos! Gesticulam satisfação por um emprego medíocre. Não passam de um mal necessário para nós empresários. Pior de tudo isso é ter de suportar o aperto suado de mão dessa gente mal vestida, penteada na desordem, de cheiro viciado; ver o suor que percorre na testa enrijecida; sentir a respiração afoita silvar surda pelo nariz. São e permanecem simétricos em sua sina. Seus dias me pertencem.
Em casa, Pedro Leopoldo, meu filho, estuda música clássica em seu Stradivarius no quarto. Maria Augusta, sua irmã, confere suas próximas aquisições de perfumes num site francês. Minha esposa, Ana Clarice, na sala de visitas, bebe o chá das cinco; viagens inesquecíveis, jantares glamourizados, sapatos importados, bolsas, joias que ganham o protagonismo da chegada. Tudo curtido e compartilhado pelas companhias de saia, salto e riso fácil em coluna social. Às vezes, no meio da noite, o alarme dispara; são os carros dos meus filhos. Um deles deixa o vidro aberto da BM. Um dos seguranças logo percebe que o gatinho persa da minha esposa repousa sobre o banco de couro preto zafira. Certa noite, minha mulher viu na internet sobre a importância do livro na vida das pessoas, de como ele agrega valor à imagem. Ela, esperta, não teve dúvidas, foi à livraria do shopping e tratou de comprar alguns, de capa bem chique. Em casa, em uma das salas de jantar, distribuiu-os sobre o mesinha de centro. Feliz pela aquisição, finalmente percebeu a importância dos livros: enfeitar, sim, ocupar espaços virgens. Agora, qualquer olhar visitante reconheceria o bom gosto decorativo da minha esposa.
Dia desses a mulher da cozinha - esse povo! - errou na quantidade de sal em meu salmão norueguês defumado. Mandei embora na hora, é claro. Contratei outra, uma baixinha, magrinha de olhos arregalados. Trazia boca com pouco dente, de conversa nenhuma; melhor assim. Cara de fome, de quem cresceu da mão pra boca, sem saber o que seria no dia seguinte. Cara de quem comia rápido, como um furto, lambendo o dedo de delícia. Cara de quem procura o lado da sombra da calçada. Fiquei sabendo que essa aí pega três ônibus pra trabalhar e aos finais de semana toma conta da mãe cadeirante. Problema dela. Temperando bem meus pratos, o emprego se garante.
Esse tipinho de gente nasceu predestinado a não saber do que o mundo pode oferecer. Não sabe o que é 'coach', não possui a mínima ideia de que no xadrez o objetivo é dar xeque-mate ao rei. Também, tem vocação para ser peão! Essa que entrou aí jamais saberá a relevância da epigenética; de quem fora Shakespeare, Nikolai Gogol, Guimarães Rosa. Ah, a que, por enquanto, está aí, viverá sem conhecer as ilhas Maldivas, Fernando de Noronha. Nasceu pra viver em estado de alegria expectante, predestinada a ser vaso sem flor, sono sem sonho, a viver na aspereza como tamanco em rua inóspita de paralelepípedo. Essa daí mal lembra em quem votou para presidente. Essa, quando criança, sonhava em ser cantora. Fã de Chico, morreu na contramão atrapalhando o tráfego.
O autor é professor, autor de artigos didáticos e coautor de antologias da Língua Portuguesa, colaborador de Opinião.