Tribuna do Leitor

Ainda sobre os banheiros comunistas, a insensibilidade e a ignorância dos poderes públicos

Prof. Dr. Antonio Vicente Marafioti Garnica
| Tempo de leitura: 6 min

É lamentável que vozes tão preconceituosas e anacrônicas ecoem tanto quanto ecoaram no caso da senhora que filmou os banheiros do McDonald´s de Bauru e divulgou a gravação como um manifesto apelando aos bons costumes e à moralidade da comunidade. Essa senhora pressupõe, equivocadamente, que seu pensamento tacanho deve ser a medida do mundo, já que julga suas concepções antiquadas e conservadoras como um ideal a reger a ela e aos outros, independentemente de quem são os outros. O certo é que ela desconhece e desconsidera os outros, aqueles que não são como ela e para os quais ela é o outro. Quem dera tivéssemos a cada esquina banheiros conservados e limpos para que toda a população pudesse usar, fossem esses banheiros comunitários ou não. O rosário de posições lastimáveis e pautadas na ignorância não acaba nessa crítica infundada: vai além. Essa senhora associa pedofilia a um grupo de pessoas cuja identidade sexual ela desconhece e, mesmo desconhecendo, sente-se no direito de julgar, condenar e atacar. Ela poderia informar-se antes de desfilar publicamente seu ideário constrangedor, pobre e podre. A pedofilia, minha senhora, o abuso de menores, ocorre mais frequentemente nas próprias casas das vítimas, e os pedófilos são, muito mais frequentemente, parentes e amigos com os quais as crianças diariamente convivem, sem precisar frequentar banheiros públicos no comércio bauruense. Se essa senhora tem equipamentos e condições que potencializam seu julgamento conservador, ignorante e inepto - equipamentos, aliás, de que pouca parcela da população dispõe, já que ao contrário do que o senso comum parece acreditar, a falta de celulares e equipamentos com internet foi um dos principais fatores de exclusão de boa parte das crianças das atividades escolares remotas na época da pandemia - ela poderia, no mínimo, informar-se antes de nos convocar, a todos, para esse levante fascista que ela descaradamente propõe. A pecha de comunista que ela atribui ao que tem sido, usualmente, um símbolo do imperialismo norte-americano seria hilário, não fosse tão absurdo. Informação, minha senhora, não dói nem ocupa espaço, e a senhora nos faria bem se usasse sua sanha revolucionária em lutas que promovessem inclusões e equidade, e não apenas esse preconceito verborrágico e danoso de vozes que, como a sua, emergem das catacumbas, usando a expressão que Dráuzio Varela já usou para caracterizar pessoas como a senhora. Informação, dizem na minha terra, é sempre bom e preserva os dentes. Preconceito é crime.

Isso tudo já é muito lamentável e escancara várias feridas desses nossos tempos putrefatos, com os olores dessas posições desprezíveis da "senhora do banheiro". Mas há ainda algo mais lamentável: o modo como se juntam a esses manifestos insanos e atrasados as vozes daqueles que têm a função precípua de criar, controlar e apoiar políticas públicas. A legislação, senhora prefeita, deve responder sensata e refletidamente ao seu tempo. Portanto, apenas acionar o Departamento responsável pela saúde pública bauruense, como a senhora fez, não deveria ser suficiente para que a senhora pudesse dormir em paz depois de divulgar decisão tão simplória quanto ineficiente, insuficiente, atrasada e inútil. Faltou-lhe sensibilidade, faltou-lhe pensar na necessidade de tornar visíveis os invisíveis, faltou pensar na parte da população excluída que a senhora governa esquecendo-se um pouco da elite nojenta da qual a "senhora do banheiro" é porta-voz, faltou-lhe reflexão e bom senso para colocar em vigência as máximas e louvores religiosos que a senhora tanto ecoou durante sua campanha à Prefeitura. A senhora não governa apenas para essas vozes catastróficas que concordam com a "senhora do banheiro": a senhora governa todos os bauruenses, inclusive os excluídos que não apoiaram sua campanha. As leis mudam e devem mudar para atender a comunidade. A Lei de Segurança Nacional, imposta pela Ditadura, inclusive, recentemente foi revogada quando se percebeu - talvez até um pouco tarde - mais uma de suas decorrências lastimáveis: ela poderia ser aplicada por um presidente de baixíssimo poder cognitivo e discutível lastro moral, como é o caso de Bolsonaro, ao qual a senhora faz claque. Foi a Lei de Segurança Nacional que essa criatura acionou para coibir a manifestação de indígenas que questionavam a total ausência de intervenção federal para tratar da Covid-19 que dizimou tribos; foi essa mesma Lei que essa mesma criatura nefasta acionou várias vezes para perseguir cientistas que não rezavam pela cartilha hipócrita das concepções de uma direita ultra radical. Aliás, é conveniente lembrar que, para esse presidente, o nazismo foi um movimento da esquerda, uma afirmação tão insensata como a daquela senhora que chama o McDonald´s de comunista. Esses nossos tempos tristes são mesmo palco especialíssimo para a ignorância e a desinformação. Proponha leis mais inclusivas, senhora prefeita, ao invés de esconder-se numa legislação que pode até existir, mas não merece existir, pois promove atrasos, descasos, omissões, e nos desvia de questões mais prementes e necessárias.

A senhora não foi eleita para ser uma mera cumpridora de leis independentemente de quais sejam essas leis, a senhora não governa apenas para as "senhoras do banheiro": a senhora tem a prerrogativa de incentivar atualizações na legislação, pois a lei é algo vivo e que de nada serve se não representa aqueles que ela pretensamente deve defender e resguardar. Leia Hanna Arendt, senhora prefeita, principalmente as disposições dessa escritora sobre a banalidade do mal.

A lei é tão viva quanto a língua, senhor vereador Eduardo Borgo, e as crianças, as escolas, os livros-didáticos, os professores e os gestores educacionais saberão dar conta de operar com atualizações - como, aliás, tem ocorrido constantemente, apesar de sua retórica, senhor vereador, que é fraca, triste, conformista e mal informada. O mundo saberá operar com essas atualizações se elas servirem para um bem maior, que é a proposição da equidade, da afirmação e da justiça social das quais pessoas como o senhor, que ocupam a posição de vereador, deveriam cuidar. A mesma necessidade de informação que eu recomendei àquela "senhora do banheiro" e à senhora prefeita, recomendo também ao senhor. E faço isso do alto da minha insignificância e do inconformismo de quem tem que conviver com posições tão atrasadas quanto preconceituosas - sim, não se engane: o senhor é preconceituoso, ao contrário do que declara - quanto as que o senhor defende em entrevista que li, neste Jornal da Cidade, teimando em apoiar-se na expressão danosa e absurda da "identidade de gênero". E falar de uma ditadura da minoria, senhor vereador? Onde estamos? Para onde vamos quando aqueles que legislam não se informam e permanecem ilhados, presos à armadilha do que lhes é mais cômodo, do discurso abestalhado que lhes é mais fácil? Quão alarmante é sua falta de conhecimento, senhor vereador, das discussões atualmente travadas pela academia contra os disparates que vêm do atual Ministério da Educação? Quão desastroso é, para nós, comunidade, ter um representante falando sobre o que apenas supõe saber, sem atualizar-se e sem considerar pontos de vista mais plurais, atuais e arrojados? Do que não se pode falar, senhor vereador, deve-se calar.

A história, espero, saberá julgar essa ignorância que grassa em nossos tempos, se generaliza e se naturaliza, indo desde às insanidades da "senhora do banheiro", que se julga a métrica do mundo, até a ação-inação da senhora prefeita, chegando às declarações desastrosas do vereador. Essas posições me enojam. Essas posições não me representam nem representam aqueles que - não sendo minorias, senhor vereador - historicamente foram e são invisibilizados, como os negros, as mulheres, os pobres, os homossexuais, transexuais e tantos outros pelos quais nossas "autoridades", principalmente, deveriam zelar.

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