É natal! Os primeiros acordes de harpa, as vozes incessantes de Simone e Lennon nas rádios, a chamada na TV do especial de Roberto Carlos não nos deixa esquecer da data.
É natal! O desemprego e a fome se espalham pelo país; nas marquises dos prédios iluminados, os moradores de rua resistem à aporofobia e derramam seus corpos esquálidos, na dureza das calçadas, para o horror de seres indiferentes, que passam céleres, na busca pelas compras natalinas.
É natal! E nas mesas da burguesia, a orgia gastronômica apresenta seu desfile anual de animais mortos, para satisfazer seus prazeres primitivos.
É natal! Talvez um dos últimos da existência humana; garimpeiros, latifundiários e madeireiros continuam a sua farra particular, diante de milhares de árvores no chão, animais silvestres dizimados, fogo na floresta e águas envenenadas.
É natal! E pelo mundo, milhões de refugiados vivem em campos de concentração, incertos do seu destino, enquanto os senhores da guerra brindam mais uma conquista.
É natal! E papai Noel, ser ignóbil, explorador de animais, retorna sua jornada injusta e sádica de ignorar as crianças miseráveis, que sonham todo ano por um presente, qualquer um, que a alegre ao menos por um dia.
É natal! Momento onde a hipocrisia se aflora em abraços falsos, amigos secretos de inimigos declarados e os exploradores do trabalho alheio, num ímpeto de caridade cristã, a suavizar suas consciências classistas, oferecem aos miseráveis suas migalhas, com a certeza de que é necessário manter a injustiça social para preservar seus ganhos estratosféricos.
É natal! Em cada lar, de forma vã, as esperanças de dias melhores se renovam e se brinda ao amanhã que nunca chegará.
Feliz natal!