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A pandemia nos fez mais solidários?

Carolina Piva
| Tempo de leitura: 3 min

Crises costumam ser impulsionadoras da solidariedade. Ao longo dos últimos meses, muitas pessoas se mostraram abertas a olhar para o próximo e, principalmente, despertaram para as necessidades das engrenagens que fazem um sistema de saúde público funcionar. Em meio a tantas dificuldades, se descobriram caminhos possíveis para captar recursos financeiros, e as ações de filantropia tomaram corpo para ajudar a fortalecer a saúde do Brasil.

Desde a chegada do coronavírus, empresas, ONGs e sociedade civil doaram cerca de R$ 7 bilhões para causas ligadas à Covid-19, de acordo com dados do Monitor de Doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos. Mas o volume de doações não acompanhou o avanço da doença no Brasil. O aprofundamento da crise econômica no País atingiu com força o repasse de recursos pelas empresas, que recuaram com a incerteza que tomou conta dos mercados. Nesse cenário, os movimentos sociais lutam para colocar mais elos na corrente solidária formada em 2020.

Adaptações e aprendizados diários são o caminho para estabelecer novas estratégias. Dentro de um hospital com atendimento 100% do SUS, por exemplo, a busca por recursos é trabalho desafiador. Os hospitais filantrópicos padecem com a gestão de seus orçamentos devido à tabela deficitária de pagamentos do SUS. A captação se torna uma necessidade urgente, que começa no relacionamento com parlamentares em busca da destinação de emendas, passa pelo contato com empresas para conseguir patrocínio e chega até as pessoas físicas, que podem destinar parte do seu imposto de renda ou simplesmente doar notas fiscais.

A principal ferramenta é sempre a sinceridade. Expor a realidade é importante para o início de qualquer conversa. Contar como funcionam os bastidores do atendimento universal de uma instituição filantrópica e como existem pessoas que se dedicam para a construção desse ideal é uma forma de gerar um despertar altruísta. Mas, apesar das diversas metodologias disponíveis, nem sempre é fácil sensibilizar os decisores da importância que as doações têm.

Não é possível prever o futuro, mas, mesmo assim, é possível traçar táticas para se reinventar e se adequar ao que o novo normal reserva e, dessa forma, garantir sobrevivência no momento atual e também depois. O ano de 2021 foi difícil, mas, ainda assim, foi possível somar várias conquistas. Agora, para 2022, a palavra é esperança de recuperação na economia que possibilite aumento nas doações, melhora na saúde geral da população e retomada das atividades presenciais. A quarentena tirou das entidades recursos geralmente obtidos em eventos presenciais, como bazares e brechós.

Enfrentar os desafios e expandir o alcance do investimento filantrópico também significa ampliar a disponibilidade de recursos para ações de desenvolvimento de diferentes setores. Essa expansão não é só urgente, como fundamental. A filantropia vai muito além do assistencialismo ou da caridade. Ela realiza mudanças efetivas, servindo como pontapé para alavancar projetos de impacto para a sociedade. Da gripe espanhola à Covid, as ações filantrópicas tiveram papel importante na promoção da saúde e continuarão a ter. Independentemente das doenças que virão, o sistema de saúde precisa ser, acima de tudo, humano.

O ato de doar faz bem para quem doa e para quem recebe. O sentimento de pertencimento ao grupo que efetivamente está fazendo algo para construir uma sociedade melhor nos torna pessoas mais empáticas, com uma visão de mundo mais abrangente. O resultado disso é vivermos em um mundo mais aberto ao novo e pacífico, porque, quanto melhor estiver o nosso entorno, melhor todos estaremos.

A autora é gerente de Marketing e Mobilização de Recursos da Saúde do Grupo Marista.

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