Minha vó Carminda, com 15 anos, natural de Vila Verde, Conselho de Alijó, Portugal, veio para o Brasil, com mais duas primas, Carolina e Maria José , isso por volta de 24 de janeiro de 1912. Desembarcou no Brasil depois de aproximadamente cinco ou seis semanas de viagem num navio que trazia imigrantes portugueses... Certamente não foi fácil a decisão de sair tão jovem de sua terra natal e vir para um mundo desconhecido.
O destino separou as três primas. Uma delas ficou na Vila Carrão, em São Paulo, a outra na Vila Prudente, também em São Paulo, e minha avó Carminda foi para a cidade de Bebedouro (SP). Veio para trabalhar na fazenda como colhedora de café, pois era analfabeta... e não sabia nada nada sobre o Brasil... Com apenas 15 anos, venceu todas as dificuldades, do idioma nato, da ausência da mãe, primas, sozinha contra tudo e contra todos... Dei o título de heroína aos 15 anos, pois imaginem vocês, uma menina-moça, em 1912, o que passava em sua cabeça com tantas incertezas, o desconhecido, uma estranha em terras brasileiras...
Quis o destino que em 1918, ou seja, poucos anos depois que chegara ao Brasil, com aproximadamente 21 anos, se casasse em Bebedouro com o meu avô Antonio Alves Filho, tendo o nascimento de um filho que nascera morto, mas com a fibra de uma mulher forte, "portuguesa com certeza", veio a engravidar, tendo nascido minha mãe Celina.
Mulher de fibra, acompanhava meu avô, que era ferroviário, para onde fosse mandado, pois ele era comunista assumido, perseguido e mandado para os locais mais distantes da ferrovia... Nunca deu um não como resposta, seguia-o em todos os lugares e de forma segura e sempre presente...
Submissa ao extremo, não saia nem para comprar uma caixa de fósforo, mas não apresentava motivos para ser a mulher sofredora, com pena de si mesma... Enfrentava a tudo e a todos...
Meu avó esteve várias vezes preso no Presídio Maria Zélia, em São Paulo, por discordar dos governos daquela época... Lá estava ao seu lado vó Carminda, dando apoio e força, sem nunca reclamar uma só palavra... Morou em "casa-de-vagão de carga", que a Ferrovia o premiava por rebeldia do sistema... Sem lamurias, e sempre pronta para o que a vida lhe oferecesse...
Essa mulher foi uma heroína de sua época, sem ter tido nenhum destaque na história de vida, que teve vindo de Portugal, certamente com uma série de sonhos, ideais, que transbordavam em seu íntimo... foi vitoriosa constituindo uma família que fez história...
Assim, muitos imigrantes de várias nacionalidades aqui vieram em busca de realizar seus sonhos e aqui deixaram seus descendentes que hoje sentem orgulho de pertencerem a estas famílias vencedoras.