O movimento de funcionários, pacientes e ex-pacientes do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC), o Centrinho, para reivindicar que a unidade continue vinculada à Universidade de São Paulo (USP) ganhou força nas últimas semanas. A mobilização começou no início deste ano, conforme o JC noticiou em ampla reportagem no dia 13 de fevereiro. Agora, inclusive, provocou o agendamento de uma audiência pública na Câmara Municipal, que será realizada de forma híbrida - presencial e online - a partir das 9h desta quarta-feira (16).
Para a reunião, convocada pela vereadora Estela Almagro (PT), foram convidados, entre outros nomes, o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti; o superintendente do Centrinho, professor Carlos Ferreira dos Santos; a ex-superintendente do hospital, professora Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado; o secretário executivo da Secretaria de Estado da Saúde, Eduardo Ribeiro Adriano, e o titular da pasta, Jean Gorinchteyn; e os deputados estaduais Carlos Giannazi (PSOL) e Professora Bebel (PT).
Também são esperadas as presenças de pacientes, ex-pacientes e seus familiares, bem como de funcionários e lideranças sindicais, incluindo representantes do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp). Segundo Ricardo Pimentel Nogueira, funcionário e membro do Conselho Deliberativo do Centrinho, a principal reivindicação é para que a Reitoria da USP revogue a decisão de desvincular o Centrinho da universidade, o que foi aprovado em 2014 pelo Conselho Universitário (CO) como medida para estancar a crise financeira da instituição.
Já em 2017, o mesmo CO aprovou a criação do curso de Medicina e, agora, a implantação da Faculdade de Medicina - necessária para que os estudantes possam obter diploma ao final da graduação - está condicionada à transferência, para o Estado, da gestão e custeio de todo o complexo do Hospital das Clínicas (HC), que incluiu o próprio Centrinho. Se esta mudança realmente se efetivar, os funcionários do HRAC passarão a ser submetidos às diretrizes de uma Organização Social de Saúde (OSS), instituição privada que está em vias de ser contratada.
"Hoje, a USP tem quase R$ 4 bilhões em caixa, nunca teve tanto dinheiro em caixa em toda sua história. A situação é completamente diferente da enfrentada oito anos atrás e cabe à universidade rever a decisão que foi tomada", frisa Nogueira.
TEMORES
De acordo com ele, que também é diretor de base do Sintusp, além do temor pelo risco de precarização das condições de trabalho, há receio, ainda, sobre uma possível perda da qualidade do atendimento prestado hoje aos pacientes, bem como prejuízos nos campos acadêmico e de pesquisas.
"Somos a favor da criação do Hospital das Clínicas, mas contra a entrega do Centrinho, que é um equipamento de saúde único no mundo, a uma OSS. Para se ter uma ideia, um cirurgião plástico demora sete anos para aprender a fazer adequadamente uma cirurgia de palato ou enxerto ósseo. Nós temos dúvidas se a OSS, quanto tiver de repor este profissional, o fará com a qualidade e quantidade necessárias, até porque, em São Paulo, vemos inúmeros casos de organizações sociais que estão demitindo funcionários alegando falta de recursos", aponta.
A reportagem questionou a Secretaria de Estado da Saúde sobre a existência de eventuais tratativas junto à USP para revisar a decisão de desvincular o Centrinho da universidade, mas a pasta informou apenas que o processo para a escolha da OSS que vai administrar o HC "está em andamento".
Conforme o JC já noticiou em outras oportunidades, a previsão é de que o novo hospital comece a funcionar em julho deste ano.