Há décadas, o filósofo Karl Jaspers escreveu uma obra com esse título. Apesar dos anos terem passado com celeridade, muitas coisas escritas àquela época ainda são válidas. Há razões para espanto se evocarmos figuras como Sócrates, Buda, Jesus cujos ensinamentos são seguidos até nossos dias?
O tema é muito fugidio, impreciso, inesgotável. É fato que uma situação histórica é considerada acabada quando já vivida. Tomemos como exemplo, o Holocausto. Havendo produzido seus efeitos, cessa de existir. O que, porém, a situação atual comporta é que o pensamento atual condiciona o que dela vier a manifestar-se. A configuração do mundo atual não é definitiva. Já houve épocas em que o homem pressentia seu mundo como uma constante, como um momento preciso entre o transcurso de uma época e um fim marcado pela divindade. Ficava tranquilo em seu espaço, sem preocupação em transformá-lo. Aceitava o seu mundo, preso à Terra e cativo do Céu.
Hoje, em comparação, o homem está desenraizado, certo apenas de sua inserção num fluxo histórico da humanidade. Perdemos o pé de muitas coisas, debruçamo-nos sobre o mundo, mas queremos saber como foi concebido e duvidamos de cada síntese. A transformação do conhecimento condiciona a transformação da existência, que condiciona a transformação da consciência cognitiva. Entramos num redemoinho de perdas e ganhos em que somos arrastados para agirmos em nosso espaço próprio. Vivemos num nível historicamente condicionado surgido de outro e em trânsito para um novo.
O mundo é indefinível e a esperança humana em vez de matar sua sede na transcendência, fixa-se no mundo passível de transformação, crente na possibilidade de uma plenitude terrestre. No entanto, uma vez que esse indivíduo, mesmo nas melhores ocasiões, só pode produzir limitados efeitos, é levado a admitir que os resultados de sua ação dependem mais das circunstâncias, tornando-se assim consciente de sua estreiteza através do confronto de suas possibilidades abstratamente concebidas e porque o devir das coisas do mundo em que a parece insignificante como força transformadora criou atualmente um sentimento de impotência. O homem mantém-se prisioneiro do curso das coisas que ele se considerava capaz de dirigir. Apesar da mudança das coisas, a atitude religiosa, articulando o nada com a transcendência, permanecia intacta. Pelo contrário, o orgulho, a arrogância de, como senhor do mundo, poder dispor de sua livre vontade de modo a atingir todas as fronteiras, transformou-se numa consciência de impotência. O aumento de perspectivas faz-nos lembrar Byung Chull Han: o sentimento de ter alcançado uma meta jamais se instaura, jamais atinge um ponto de repouso; não que não queira alcançá-lo. Ao contrário, não é capaz de chegar a uma conclusão. Vive num sentimento de carência e de culpa e visto que está concorrendo consigo mesmo, procura superar-se até sucumbir.
O homem é o único ser que não apenas é, mas sabe que é. Para Jasper, ele é o ser não identificável como simples existência porque, capaz de determinar o que vier a ser, é espírito e a situação do homem autêntico não pode deixar de ser a da sua situação espiritual. Isso implica vários problemas. Que significa tal situação? De que modo se responde hoje ao problema da existência? Ao encontro de que futuro se dirige o homem? De que modo se responde ao problema da existência?
Para Jasper, se a resposta for clara, deverá caminhar, mediante o conhecimento para a suspensão do não-conhecimento, para chegar aos limites onde o homem, como indivíduo, desperte para si mesmo. "O que à divindade cabe saber não cabe ao homem querer saber, porque tal conhecimento acabaria por anular a sua existência no tempo cuja atividade deverá antes motivar o conhecimento". Se a ruína da atividade espiritual vier a ser discutida, nesse caso que o seja até ao limite em que uma nova possibilidade desponte.
A autora é pedagoga, jornalista, advogada, professora doutora aposentada - Unesp