Com grafias semelhantes e significados muito distintos, tradução, traição e tradição são colocadas juntas para contrapontos e discussões literárias cujo principal objetivo é a análise da sociedade.
No início do ano, por ocasião do centenário de "Ulisses", de James Joyce, o Acadêmico Antonio Carlos Secchin fez comentário sobre as cinco traduções da obra para o português já existentes, mencionando a sexta que está em curso. Brincou que o dia era 2/2/22 e que terminaria de ler todas em 3/3/33, ou seja, pouco mais de 11 anos para as seis versões, dois anos para cada uma. Em 16 de junho passamos pelo Bloomsday em referência ao protagonista do referido livro. Literatos de tradição que avocam para si algum calibre clamam pelo Bloomsday sem ter passado das primeiras dezenas de páginas de Ulisses, falsidade ou hipocrisia que estão diretamente relacionadas à má fé com que tratam suas escolhas políticas. Meus comentários sobre o clássico catatau ficaram no blog http://adilson3paragrafos.blogspot.com/2022/02/o-tempo-de-james-joyce.html, além de outras incursões, duras ou divertidas.
A revista especializada em livros "Quatro Cinco Um", por ocasião do centenário, não adentrou a questão das traduções, apenas publicou propaganda sobre um lançamento comemorativo de uma nova edição do livro.
Traduzir é tarefa árdua e cheia de armadilhas e traduzir Joyce pode ser impeditivo. Dirce Waltrick do Amarante, também tradutora, denunciou em artigo recente na Folha de S. Paulo que Bernardina da Silveira Pinheiro, única tradutora de Ulisses no Brasil foi ignorada nessas comemorações, incluída naquele total de cinco, lembrado por Secchin. Ela trouxe a discussão sobre o apagamento da tradutora Bernardina, única mulher latino-americana a completar a empreitada. As tradutoras tiveram atuação em outras obras de Joyce.
Meu exemplar de "Retrato do artista quando jovem", edição de 1998 do próprio jornal em que saiu o artigo, é de outra tradução, apenas as notas são de uma mulher, Hilda Gouveia de Oliveira. O que nos resta é, independente do gênero e da tradição, a versão de quem passou do inglês para o português. Ah, tradutores que nos traem!
O autor é pesquisador da Unesp-Rio Claro.