Ele estava lá, sentado num banco de jardim. Seu olhar fixo transmitia um certo ar de ausência no lugar que ocupava. A luz, clara e branca refletia-se nas lentes de seus óculos. Aos poucos, as pálpebras começavam a cobrir-lhe a visão, parecia dormir ali sentado. Muitos pensamentos lhe vinham a memória e em segundos regrediu décadas. Seu antebraço encostado no poste e sua testa encostada nesse, de olhos fechados, contava até cinquenta. Abriu os olhos e olhou rapidamente a sua volta na tentativa de enxergar algum vestígio de onde estavam as outras crianças que acabavam de se esconder. Olhando bem atentamente, começou a girar o corpo numa volta de trezentos e sessenta graus e nada, nenhum sinal! Abrindo seus olhos novamente, agora a luz do poste lhe ofuscava a visão. Sua cabeça baixou lentamente até que seus olhos pudessem enxergar a altura de onde ele costumava apoiar seu antebraço e contar até cinquenta. Olhou em volta, devagar, ponto a ponto onde as crianças costumavam se esconder na certeza de que elas não estavam mais lá. Olhou novamente para o poste e voltou a subir seu olhar em direção a luz. Ela parecia a mesma de décadas atrás, iluminando como em todas as noites a praça que abrigava toda aquela criançada que se reuniam para brincar, uma noite de pega-pega, outra de amarelinha e, em certas noites, a brincadeira que ele mais gostava: pique-esconde.
O poste permanecia lá, sempre lá, no mesmo lugar, testemunha oculta de todos os acontecimentos. Enfim, ele levanta-se devagar apoiando-se em sua bengala e caminha lentamente em direção ao poste. Apoiou seu antebraço e encostou a testa no mesmo, fechou e abriu rapidamente seus olhos, fez vagarosamente um giro de trezentos e sessenta graus olhando calmamente para os possíveis pontos de esconderijo na certeza de que nenhum de seus amigos ali estavam. Das brincadeiras, só lhe ficou um companheiro... o poste!