As inesquecíveis pescarias das quais que participei com os mesmos companheiros durante anos, meus parceiros de antiga amizade, foram quase todas mencionadas em edições do JC das quintas-feiras, no caderno oferecido ao Turismo, infelizmente suprimido da produção do jornal no momento em que se deram conta da chegada da hora de adequa-lo com a atualidade da forma e alteração do conteúdo, mudança explicada pelo redator chefe João Jabbour, em edições precedentes. A extinção do caderno Turismo causou a interrupção das histórias que vinham semanalmente narradas. A última edição de "Histórias de pescador", publicada no JC de 19/03/2020, por mera coincidência, também encerrou a história "Pescaria em Ayolas", colocando um ponto final sobre o assunto que vinha escrevendo. Estava começando a dedilhar no teclado do computador a pescaria no Rio Paraguai iniciada na histórica cidade de Cáceres, MT, contudo, tive de aguardar uma outra ocasião que tornasse viável o retorno das publicações dos entusiastas de pescaria, para que junto deles, reiniciassem meus contos.
Enquanto isso não acontece, volto a falar do Rio Paraguai e as maravilhas do entorno, na região de Porto Esperança-MS, vilarejo habitado por ribeirinhos que da pesca extraem o sustento da família, também de muitos ranchos de pesca movimentados o ano todo o que muito cooperou com a vida do povoado.
Certa ocasião eu e meus companheiros, não me recordo quais eram, mas provavelmente João Costa Gomes, Luiz Pegoraro e Pedro Gonçalves Cardoso, fomos informados que no sopé do Morro do Conselho morava um casal de idosos cultivando pequeno bananal cuja fruta de intenso sabor era vendida por penca ou por dúzia, a escolha do interessado. O Morro do Conselho tem uma elevação próxima de 400 mt. É situado na margem direita do caminho para o Forte Coimbra, porém, bem mais perto de Porto Esperança no sentido descendente do rio. De elevação singular e inigualável naquela região por ser o único daquela dimensão na imensa área desprovida de morros elevados, o Morro do Conselho se impõe, e, sendo num passado não muito remoto lugar onde os dourados se multiplicavam nas aguas a seus pés, serviu em inúmeras vezes como pano de fundo para fotografias exibindo os peixes capturados. As variedades de árvores naturais produziam alimentos da flora e fauna de diversas espécies para o regalo dos animais e aves de rapina que ali transitavam. Na primavera, as árvores do Morro do Conselho se enfeitavam de flores coloridas, predominando o ipê de cor rosa, na primeira floração, e, cor amarelo, na segunda floração. É curial explicar que são árvores diferentes e que o Ipê amarelo floresce depois do ipê rosa chamar a atenção para o belo expondo sua pompa para encantar o ambiente e os olhos de pescadores e turistas que por ali navegavam na estação das flores. No outono as árvores se despojavam das flores começando um ritual homogêneo com a queda de suas folhas, alertando com essa anual formalidade a aproximação do inverno. O morro mudava de feição se transformando numa montanha cor de terra, abandonando sua alegre paisagem para se converter em algo triste, melancólico, sem deixar vestígio da majestade multicolorida que há pouco reinou daquela região.
A entrada do morro se fazia através de uma espécie de túnel de arvores de médio porte, caminho que passava pela plantação de bananas, uma pequena bica, terminando num casebre de madeira, moradia singela do casal de idosos. Ao todo, aquela área correspondia a 1.000 m2 de planície, depois iniciava a verticalidade do morro. Fomos até aos idosos, ouvimos a dificuldade de morar num lugar isolado, e compramos banana. A mulher idosa usava óculos com aspecto de ser muito antigo em virtude da aparência das lentes, muito embaçadas o que evidenciavam a necessidade de novo exame da visão para atualiza-las. Isso demandava dar um jeito e seguir até Corumbá, cidade com recursos da área médica e retornar a vida no morro enxergando exatamente o que era focalizado. Mas como dar um jeito se não havia ninguém para ajudar? O jeito era ir levando a vida como estava e a mulher idosa vendo as coisas com a visão ofuscada. Disse ela a seu companheiro enquanto lá estávamos que, no dia anterior e da cozinha da casa, viu um casal de jaguatirica beber água na bica. O companheiro que naquele momento trabalhava no bananal, próximo a bica, também viu os felinos, mas fez uma correção à companheira dizendo; que jaguatirica, o que você viu era um casal de onça pintada que vive no morro. Está mesmo ruim da vista.