Articulistas

A verdade da lua

Marcondes Serotini Filho
| Tempo de leitura: 3 min

Com este calor de matar, o ar condicionado do carro é luxo indispensável e nos permite observar na estrada, depois de um dia repleto, a companhia de uma Lua persecutória, poderia assim dizer. Agora, por exemplo, ela parece que vai cair no meu colo, não respeitando a distância que nos separa, como uma pessoa que amamos e, de repente, aparece para nos fazer feliz. Não respeita as curvas da estrada e se posiciona muito perto. A gente sabe que ela estava lá, mas nunca tão perto.

E assim como veio, esta Lua passou neste momento a permanecer ao meu lado, devido às curvas da estrada, que agora, por um momento, ela passou a respeitar. Esta Lua é muito volúvel e eu já sabia disso. Vários poetas já me disseram desta verdade e só agora consigo entender. O melhor da vida é poder ser dono desta inclusão lírica que acontece quando entendemos uma poesia, entramos no mundo até mesmo de um crítico, passando a fazer parte, mesmo por um lapso de segundo, deste misterioso e saboroso clube de sonhadores sem culpa.

Ao meu lado, ela me incomoda como uma dúvida quase existencial, que nos acompanha até a morte e que aprendemos até a conviver para que a loucura não nos vença. Adquire a mesma minha velocidade, parece até mudar de cor e se afasta por um momento, que são aquelas vezes em que nossas desconfianças se esvaem pelo vão das nossas satisfações, geradas pelo resultado de um conjunto de obra que satisfaz pelo todo, sem entrarmos em muitos detalhes. Não é daquelas Luas de vapor metálico, branca, quando podemos apagar os faróis do carro e contemplar seu poder roubado do Sol que desnuda o asfalto com violência. É luz amarela, do sódio em vapor, que esparge pelo caminho apenas uma luz curta, como aquela que ilumina toda nossa vida - com sofreguidão - e se parece com a esperança.

É uma Lua de saudade, porque me remete ao passado, quando as noites de calor nos faziam deitar pelas calçadas com a mãe, o pai, os amigos e vizinhos, sem TV e só com as companhias, que por vezes terminavam num jogo de víspora que me cheirava a um alto grau de vício daquelas velhinhas loucas para sacar as pedras do saquinho de algodão.

Como esta Lua não me largou mesmo e, me desolando, se despediu quando cheguei perto de casa, algo de adúltero senti nela. Porque não quis me acompanhar até o ninho do meu lar. Quais seriam suas intenções? Por que somente me acompanhou pela estrada, ora à minha frente e distante, ora dentro do carro e sorrateira ao meu lado. Estava eu de ingênuo nesta história, esperando uma despedida ou até tê-la como guia no meu rumo final. Não. Ela me abandonou e fui para o sul e ela buscou seu norte.

E me deixando sem norte, porque fiquei sem saber qual era a verdadeira face desta Lua, nesta noite quente.

O autor é especialista em ortodontia e saúde pública. Colabora com Opinião.

Comentários

Comentários