Sílvia Mondejar Piche é muitas mulheres em uma. É um corpo todo tatuado; mãe; esposa; apreciadora das artes; um pouco atriz; um pouco cantora; fã de Rolling Stones, Frida Kahlo e Carmen Miranda; e, desde maio deste ano, coordenadora do Núcleo Regional do Procon-SP em Bauru. Filha de um advogado e de uma dona de casa, ela cresceu em uma família tradicional da classe média paulistana.
De alma livre, até a adolescência sonhava em ser atriz e chegou a se considerar a "ovelha negra" cantada na música de Rita Lee. Morou em São Thomé das Letras com o desejo de se tornar hippie, mas, quando voltou para a Capital, acabou engravidando, aos 23 anos. A dura realidade de se tornar uma mãe solo foi a virada de chave na vida de Sílvia, hoje com 47 anos.
Em busca de um trabalho que lhe garantisse estabilidade financeira, prestou concurso para ingressar no Procon, encontrando neste ofício uma forma de proteger pessoas mais fragilizadas e vulneráveis. "Sempre tive um senso de justiça muito forte. Então, este trabalho faz muito sentido para mim".
Casada com Antonio Augusto Ferraz, mãe de Yuri, 24 anos, filho de um relacionamento anterior, e Nina, 15 anos, Sílvia mora há dez anos em Bauru. Nesta entrevista, ela conta um pouco sobre suas paixões, sua trajetória profissional e como é lidar com o preconceito quando uma mulher tatuada ocupa um cargo de liderança.
JC - Como veio parar em Bauru?
Sílvia - Eu e meu marido queríamos sair da loucura de São Paulo e, quando soube que iria abrir a Regional do Procon de Bauru, em 2012, me inscrevi. Na época, a Nina era criança e o Yuri, adolescente. Ela se adaptou rápido, mas ele estranhou um pouco. Meu marido é fotógrafo e artista plástico, então, foi mais fácil para ele. Para mim, a maior dificuldade foi acostumar com o calor. Também sinto falta de programas culturais. Em compensação, aqui temos qualidade de vida melhor.
JC - Programas culturais? Então, você tem uma relação forte com a arte?
Sílvia - Gosto de moda, cinema, música, teatro e literatura. Em Bauru, tive tempo para realizar vários sonhos: fiz aula de canto, estudei um pouco de música, encenei duas peças no Teatro Municipal. Meu filho é contrabaixista e estuda no Conservatório de Tatuí. Minha filha canta, toca piano. Meu marido toca bateria, é fotógrafo. Então, a arte faz muito parte da nossa vida.
JC - Posso estar errada, mas você tem um visual de quem gosta de rock. Isso procede?
Sílvia - Eu adoro Rolling Stones. Tenho até a famosa língua tatuada no ombro. Mas gosto bastante de MPB, blues e jazz também. E, apesar desse meu visual mais casual, sou organizada, disciplinada, trabalho e cuido de dois filhos.
JC - Sofreu preconceito pelas tatuagens?
Sílvia - Antes de ser coordenadora, quando saía para fazer orientação no comércio, as pessoas ficavam surpresas por saber que eu trabalhava no Procon. Agora, sinto ainda mais o preconceito, por ser mulher e uma mulher tatuada em um cargo de liderança. É comum alguém chegar e perguntar para vários homens se algum deles é o coordenador. E, quando a pessoa fica sabendo que sou eu, há um certo constrangimento. Mas, felizmente, conversando, logo esse mal-estar é dissipado.
JC - Tem alguma tatuagem especial?
Sílvia - Todas contam um pouco de mim. Tenho, por exemplo, uma da Carmen Miranda e uma da Frida Kahlo, que representam meu lado feminista. Uma outra é uma ovelhinha negra. Por uma fase, quando abandonei a faculdade de Fonoaudiologia, me considerei a ovelha negra da família. Fui morar em São Thomé das Letras, queria ser hippie. Ainda criança, meu irmão cantava pra mim: "foi quando meu pai me disse 'Silvia, você é a ovelha negra da família'" (risos).
JC - E como chegou até o Procon?
Sílvia - Até a adolescência, eu queria ser atriz. Mas fui fazer Fonoaudiologia, que acabei abandonando. Fui trabalhar no Sesc Pompeia, época em que engravidei, com 23 anos. Separei-me do pai do Yuri e, diante da necessidade de criar um filho praticamente sozinha, me formei em Publicidade e Propaganda e comecei a trabalhar em agências, até ficar sabendo do concurso para técnico do Procon. Prestei e me chamaram em 2008. Da mesma forma que gosto de arte, sempre tive um senso de justiça muito forte, de defender minorias, pessoas que, de alguma forma, eram excluídas. Desde a escola, sempre tomava dores de colegas que sofriam bullying e cresci rodeada de amigos gays, pretos.
JC - Foi uma forma de encontrar estabilidade e ao mesmo tempo sentido para a carreira?
Sílvia - Sim. No Procon, posso defender as pessoas, ajudar a sociedade. Trabalhei primeiro como atendente no Poupatempo de Santo Amaro, periferia de São Paulo, e fiquei muito sensibilizada em ver como as pessoas são carentes e enganadas pelas empresas por falta de conhecimento. Depois, fui trabalhar com atendimento de queixas por cartas na sede do Procon. Lembro de uma senhorinha que reclamou de um poste de luz de madeira na rua dela. Conseguimos que a concessionária colocasse um poste de concreto e essa moradora mandou um cartão agradecendo, dizendo que a rua estava em festa por minha causa. Às vezes, a gente não precisa fazer muito para melhorar a vida de alguém.
JC - E como foi a promoção para assumir a coordenação do Núcleo Regional?
Sílvia - Saí do atendimento de cartas para vir para Bauru, em 2012. Comecei fazendo trabalhos administrativos, orientações, relatórios e, com o passar dos anos, passei a substituir a coordenadora anterior, nas férias dela. Fui ganhando experiência e, quando a coordenadora retornou para São Paulo, fui indicada pelo Procon na Capital para assumir a função, em maio deste ano. Eu não esperava. Até eu mesma achava que, por ser toda tatuada, ninguém me daria um cargo de liderança. Mas sei que foi o reconhecimento do meu trabalho.