ARTIGO

"Mulher vota mal"

Por Ayne Salviano | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 3 min

Este é um ano de eleições majoritárias, quando os brasileiros escolherão o presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. É muito importante que candidatos e suas equipes conheçam o perfil do eleitorado, mas, especialmente, que se preparem para se comunicar com esses públicos se quiserem a vitória.  Por exemplo, as brasileiras representam 52,8% do eleitorado brasileiro, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em números absolutos, são aproximadamente 82,8 milhões de mulheres contra 73,9 milhões de homens. 

O perfil do eleitorado feminino é caracterizado pela diversidade. A maior concentração de eleitoras está na faixa de 45 a 59 anos, seguida pelas jovens e adultas entre 25 e 34 anos. Quanto à escolaridade, o nível de instrução majoritário é de eleitoras com o ensino médio completo. Estatisticamente, as brasileiras possuem maior grau de escolaridade formal do que os homens. Elas superam o eleitorado masculino tanto nos índices de conclusão do ensino médio quanto no ensino superior completo.

No que se refere ao perfil socioeconômico, o maior volume de eleitoras brasileiras está concentrado na baixa renda, recebendo até dois salários-mínimos. Uma parcela expressiva das eleitoras é mãe solo ou composta por mulheres que desempenham o papel de principais provedoras financeiras de seus lares. O interessante é que essas mulheres não se identificam com ideologias políticas. Segundo dados do DataSenado, a maioria não se reconhece explicitamente com a direita ou com a esquerda, embora levantamentos institucionais apontem que os homens se autodeclaram mais à direita (34%) do que as mulheres (apenas 24%).

De acordo com cientistas políticos, o voto feminino no Brasil é guiado majoritariamente por pautas pragmáticas e do cotidiano, como a inflação, o preço dos alimentos, questões de saúde e segurança pública, além da educação, distanciando-se de debates puramente ideológicos. O voto feminino foi decisivo nas eleições de 2022. O presidente Lula venceu a eleição presidencial com 50,9% dos votos válidos totais. 

O apoio das mulheres – 55% do total de votos válidos — foi o principal fator para a vitória, segundo as análises. Talvez por isso, falas como a de Paulo Figueiredo não ajudam. O neto do último presidente da ditadura militar, João Baptista Figueiredo, afirmou recentemente que "mulher vota estatisticamente mal". Segundo ele, o voto ruim viria das solteiras, porque “as mulheres casadas acompanham a escolha política dos maridos”.

Quem é Paulo Figueiredo? Um brasileiro que reside nos Estados Unidos. Possui mandado de prisão preventiva decretado e é considerado foragido da Justiça. Segundo a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República, ele participou da tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Atualmente, é investigado por atuar como interlocutor junto ao governo de Donald Trump e parlamentares do Partido Republicano para tentar aplicar sanções internacionais contra o Brasil.

Se ele queria conquistar o voto feminino para as causas que defende, começou do jeito errado. A fala machista e misógina conseguiu ser pior porque aconteceu dentro de um contexto no qual ele desvalorizava a esposa do ex-presidente, Michelle Bolsonaro. Ou seja: o que estava ruim só piorou. Saber se comunicar é o começo do sucesso. E o inverso também é verdadeiro.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora. Mestre em comunicação e semiótica com MBA Internacional em gestão executiva

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