Respira-se quietude na cidade de Assisi. As grossas paredes das casas, as ruas estreitas, no setor velho do burgo, a exuberante vegetação que envolve a cidade num verde e vital abraço induzem a cultivar o clima de um repouso difuso. O encanto se completa pelas decorações florais que ornam praticamente toda residência na parte mais antiga e encantadora do burgo e estimulam o visitante a caminhar em envolvente clima de contemplação e de fascínio.
Presume-se que nos inícios da Idade Média o convívio na região se encontrava bem mais agitado, tanto pelo insistente recrutamento de jovens a integrarem as Cruzadas na defesa dos lugares santos contra os sarracenos, como também pela próspera vida comercial que distinguia a cidade. Nesse ambiente inquieto e frívolo, um jovem, filho e herdeiro de uma próspera família, ferido em combate, entediado com a vida fútil e desorientado diante de um sombrio futuro, decide visitar, por pura curiosidade, uma destruída capela situada no vale logo abaixo do burgo.
Um crucifixo gótico absorve sua atenção. Para onde caminha, o olhar aberto do Cristo crucificado o segue. Desponta uma inspiração, como se fosse a voz do próprio Cristo, a sugerir a restauração da igreja. Francisco intui que a reformulação solicitada pelo crucifixo de São Damião referia-se mais à costumes que à arquitetura, envolvia mais a atividade pastoral dos ministros ordenados que a exibição da sua aristocracia.
Nasce novo jeito de ser igreja. Prega-se menos um Deus que castiga e mais um Pai, amoroso e misericordioso. A liturgia abre espaço para celebrações mais inclusivas. Essa lufada restauradora e de cunho religioso fazia-se sentir, simultaneamente, na cidade, Bolonha. Ali, no berço do ensino acadêmico do ocidente europeu, um religioso espanhol, de nome Domingos, intui a urgência de ensinar com fidelidade e de pregar com zelo pastoral as legítimas verdades do evangelho.
Comove-o profundamente a ignorância religiosa. Os falsos profetas se apresentavam mais zelosos e mais despojados que os ministros ordenados da Igreja, atraindo com isso um número crescente de fieis. Domingos intui a urgência de uma profunda renovação na transmissão e no ensino da verdadeira fé. Reconhece a premência de infiltrar na elite acadêmica. Sábios e religiosos, os pregadores propagariam a fé com mais consistência e convicção.
Forma, então, uma comunidade de frades que abraça como principal atividade pastoral o ensino acadêmico da teologia nas nascentes universidades e, simultaneamente, dedicando-se ao ministério da pregação itinerante nas dispersas comunidades locais. Nasce a Ordem dos Pregadores, mulheres e homens de vida simples, dedicados ao estudo, ao ensino e à pregação. Francisco e Domingos, irmãos na fé, perspicazes luzeiros, imbuídos zelosamente com a pastoral missão de resgatar vidas e de testemunhar a bem-aventurada alegria inerente ao seguimento de Jesus Cristo.
Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba.
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