Recentemente, um vereador de São Paulo chamou professores de “vagabundos” e “burros”. Ataques inflamados como este contra profissionais da Educação têm nome: professorfobia, ou, medo de professor. O termo foi usado, em 2023, pela doutora em Psicologia, Cynthia Ciarallo.
Em uma postagem em suas redes sociais, ela simulou um verbete de dicionário com os seguintes sinônimos para o termo: aversão a quem se dedica a educar para a leitura crítica do mundo e para a escrita da própria história; estratégia para gerar ódio e desconfiança contra pessoas que estimulam o senso crítico; modus operandi voltado à desqualificação de quem educa.
Ao longo das últimas décadas, um determinado grupo da sociedade vem se esforçando muito para desqualificar professor. Eles criaram narrativas que transformaram a educação pública, as universidades e os professores em alvos centrais de disputas ideológicas. Hoje, o cenário é, em muitas instituições, de assédio institucional, patrulhamento em sala de aula e violência simbólica.
Os ataques começaram após a redemocratização do país, no final dos anos 1980. Sob o pretexto de combater uma alegada “doutrinação ideológica” dentro das escolas, criou-se a Escola sem Partido, que, ninguém se engane, tem partido.
Entre 2010 e 2016, para tentar inviabilizar qualquer discussão sobre diversidade, sexualidade ou direitos humanos nas salas de aula surgiu um discurso centrado no pânico moral e, com ele, termos como “ideologia de gênero” e “kit gay”. Só para esclarecer, nunca houve distribuição de kit gay em escola.
De 2019 a 2022, o próprio Estado passou a tratar a educação e os professores como “inimigos da pátria”. Políticos passaram a orientar alunos a filmar professores em sala de aula para denunciar supostos casos de “doutrinação”, o que gerou um clima de assédio moral e autocensura pedagógica.
As consequências destas ações são severas para a Educação. Segundo o Observatório Nacional da Violência contra Educadores, uma pesquisa realizada em 2025 indica que mais de 90% dos professores já sofreram ou testemunharam algum tipo de perseguição ou censura direta. Outro relatório nacional da Agência Brasil aponta que 80% dos professores já cogitaram abandonar a profissão.
Além disso, levantamentos sobre a saúde mental dos educadores indicam que, em maior ou menor grau, quase a totalidade da categoria apresenta sinais associados à Síndrome de Burnout, à ansiedade crônica e à exaustão emocional. A Educação não é o problema. É a solução. Transformar as escolas e os professores em inimigos como ferramenta de mobilização eleitoral é golpe baixíssimo. Quem não deseja a difusão do saber quer manter as pessoas ignorantes para poder dominá-las.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora, com mestrado em comunicação e semiótica e MBA em gestão executiva.
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