OPINIÃO

Figurinhas e figuras de Copa do Mundo

Por Tito Damazo | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 5 min

Um dia desses vi, num intervalo de programa de televisão a que assistia, a propaganda das figurinhas desta Copa. Reparando no que mostravam, percebi que as figurinhas eram feitas de papel laminado. Estranhei. Menino de cidadezinha, em tempo de Copa do Mundo, álbum de figurinha era febre infanto-juvenil.

Na escola, a troca de figurinhas e o “bater bafo” nos recreios substituíam por completo a pelada no pátio de terra; a brincadeira de “salva” (um cara ficava num lugar estabelecido como prisão, cabeça escorada olhando pra parede, os outros se escondiam; o primeiro que descobria gritava-lhe o nome, detalhando o lugar onde estava escondido. Teria que vir para a prisão. Assim sucessivamente. Tinha de ficar vigilante, pois, alguém dos escondidos, súbito, vinha correndo a tocar num prisioneiro, gritando “salvaaa”! E todos os salvos voltavam a se esconder. Se denunciado antes, estava também preso. O aprisionador, livre para se esconder, e o que não conseguira salvar os presos ficava em seu lugar).

Na sala de aula, os muito suados eram postos de castigo, a professora passava descomposturas em todos. Qual o quê! Dia seguinte, tudo se repetia. Não havia suspensão, pois achávamos ótimo. Teríamos mais quatro horas do dia para a rua.

No período da Copa, porém, dávamos trégua ao nariz da professora. Ninguém fedendo a suor na carteira após o recreio. Contudo, havia os saidinhos do fundão que jogavam bafo, quando a professora passava um longo ponto na lousa para copiarmos. Se pegos numas das vezes em que subitamente ela se virasse para a classe, os infratores ganhavam castigo. Um era posto atrás da porta da sala que permanecia aberta para o corredor. O outro, num canto da sala de costas para a classe.

Terminadas as aulas, mal se almoçava e se corria para o bar do Alécio comprar balas que traziam enroladas as figurinhas. Eram duas ou três, se mal não lembro. Caso se estivesse duro, o que acontecia com a grande maioria de nós, nos virávamos como podíamos. Íamos, eu e um irmão, procurar pelas bibocas antigas da cidade ferro velho e cobre, para vendermos ao “ladrão do seu Gabriel” – porque pagava uma miséria por quilo. Era o dinheiro para as balas de figurinha no bar do Alécio. Quase sempre, mal davam para duas ou três. E as figurinhas, todas repetidas, principalmente se já estivéssemos com o álbum dependendo de poucas – as consideradas difíceis e as muito difíceis. Então ficávamos por ali, trocando, quando era possível, pois quase todos tinham as mesmas repetidas. E “jogando bafo” até a noitinha.

Álbum totalmente preenchido dava direito a prêmio. Lembro-me que “utensílios domésticos”: conjunto de jogo de água, de xícaras para café, de pratos de porcelana, essas coisas “importantes para um lar”. As figurinhas difíceis de sair eram as carimbadas. As muito difíceis (acho que duas), as assinadas. Lembro-me de algumas carimbadas (somavam umas quatro ou cinco). Eram o goleiro Castilho do Fluminense, o atacante Moacir do Flamengo... A assinada dificílima era a de Pelé.

Por si só, a figurinha de Pelé valia o maior dos prêmios, uma bicicleta Monark. Preenchido sem a figurinha de Pelé, o álbum já dava direito àqueles jogos de utensílios domésticos. Se com a de Pelé, o que nos parecia impossível (já dizíamos que a de Pelé deveria ser uma ou duas a ser sorteadas para todos os lugares), pois ninguém a conseguia, o sortudo levava todos os prêmios juntos, os utensílios e a Monark.

Pois não é que lá na minha terrinha de nascença o sortudo fui eu? Sempre que as circunstâncias me autorizam reconto esse episódio de minha vida. Copa do Mundo de 1958. Era eu um infantoadolescente. Mal acabara de fazer 10 anos. Aluno da Quarta Série A do Grupo Escolar Prof. Victor Sansoni. Depois da escola, almoço, alguns afazeres caseiros determinados como obrigação diária; e rua! Pelas peladas de rua até o lusco-fusco impedir.

Pelé na mão, não me contiveram os amigos, saí correndo desesperado para a sapataria de meu pai. Falava quase sem fôlego, aos atropelos. Para meu pai foi um milagre. A bicicleta foi entregue ao Empório dos Nani em pagamento à extensa dívida de seu crédito pressionadamente ameaçado. Nem vi a Monark. Foi direta ao Nani.

Em sua belíssima crônica de domingo passado, na Folha de S. Paulo, falando das figurinhas da Copa deste ano que, pressupunha, suspenderão nesse período a obsessão pelo celular, Antonio Prata conta que quase foi às lágrimas, quando sua filha lhe perguntou se sabia “bater bafo”. A pergunta era a prova de sua pressuposição. A crônica me levou às divagações que deixo aí em cima.

Somente uma coisa me parece um nonsense no que diz respeito a “bater-bafo”. As figurinhas de hoje são em papel laminado. Rígidas, mais parecem pequenas cartas de baralho. Como “bater-bafo” com isso? Antes, elas eram de papel comum. Acertávamo-las do enrolado da bala, para que a mão em concha virasse a cara do jogador. Essas passavam a ser de quem as virou. Como virar com a concha da mão – regra do jogo – esses baralhinhos-figurinhas? A impressão é a de que estão fora de cogitação os muitos entusiasmos e emoções que se tinha ante a surpresa da jogada.

Deve ser uma chatice. Será que a molecada vai mesmo esquecer, durante esse tempo, o celular por esse “jogo” que terão de empregar força ou coisa parecida, em vez dos sutis jeitos com que se “batia o bafo”? Há também o enfado da repetição, em face da instantaneidade do perecimento das coisas nessa era da efemeridade, era da liquidez, em que tudo, rapidinho, se desmancha no ar.

Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

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