Após morte de menino, moradores capturam 100 escorpiões
A morte do menino Bernardo Lima Mendes (3) após ser picado por um escorpião dentro de casa em Conchal, no interior de São Paulo, no fim de março, acendeu um alerta. Após o incidente, os moradores da cidade conseguiram capturar mais de 100 exemplares do aracnídeo.
Segundo relatos da família, a criança foi picada na noite do dia 31 de março e recebeu atendimento inicial no Hospital e Maternidade Madre Vannini. Em seguida, foi transferida para a Santa Casa de Araras, unidade de referência na região para casos que exigem soro antiescorpiônico, onde morreu na manhã do dia seguinte. A Polícia Civil investiga possível negligência no atendimento médico.
A repercussão do caso levou moradores a organizar uma espécie de "caçada aos escorpiões" em bairros da cidade. Munidos de lanternas de luz ultravioleta, alicates e potes de vidro, grupos passaram a vasculhar terrenos, quintais e áreas com entulho durante a noite.
A luz ultravioleta faz os escorpiões brilharem no escuro, o que facilita a localização dos animais. Em uma das buscas realizadas nesta semana, moradores afirmaram ter capturado mais de 100 escorpiões em uma única noite, principalmente em terrenos baldios e locais com acúmulo de materiais.
O clima entre os moradores é de preocupação. Alguns relataram ter encontrado os animais dentro de casa, inclusive em quartos e camas, o que intensificou o sentimento de insegurança na região.
Apesar da mobilização da população, a Vigilância Sanitária de Conchal orienta que moradores não tentem capturar escorpiões por conta própria. O órgão aconselha que sejam evitadas principalmente áreas de mata ou terrenos de risco. A prática pode resultar em picadas e acidentes, diz a instituição.
A recomendação é acionar a equipe de Controle de Zoonoses, responsável pelo manejo adequado desses animais. Em caso de picada, a orientação é procurar imediatamente o pronto-socorro do município, que funciona 24 horas. Situações que exigem soroterapia são encaminhadas para a Santa Casa de Araras.
Diante da preocupação da população, a Prefeitura de Conchal informou que tem intensificado ações de combate à proliferação de escorpiões em diferentes regiões da cidade. Entre as medidas anunciadas está a dedetização da rede de esgoto, realizada em etapas e em diversos bairros. O objetivo é combater ratos e insetos, especialmente baratas, consideradas uma das principais fontes de alimento para os escorpiões.
Segundo notas divulgadas pela administração municipal, também estão sendo realizadas ações específicas em áreas com maior incidência dos animais, como o bairro Santa Luzia e regiões próximas a áreas industriais. As equipes municipais têm atuado com estratégias como captura manual, cortina de fogo e aplicação de cinturão químico, além do monitoramento de pontos considerados críticos.
A prefeitura também informou que vem notificando proprietários de terrenos com mato alto ou acúmulo de entulho. Esses locais podem favorecer a presença de animais peçonhentos e representar risco à saúde pública. Caso os responsáveis não realizem a limpeza, podem ser aplicadas multas ou até a execução do serviço pela própria prefeitura, com cobrança posterior.
Outro ponto destacado pela administração municipal é a necessidade de colaboração da população. Eles ressaltam que é preciso manter terrenos e quintais limpos e eliminar possíveis criadouros.
Especialistas afirmam que o controle desses animais depende principalmente da forma como o ambiente é organizado. O biólogo Matheus Fernandes Viola, doutor em ecologia, biodiversidade e evolução, explica que o manejo eficaz segue um princípio conhecido como os "4 As": acesso, abrigo, alimento e água.
Segundo ele, o controle de escorpiões exige mudanças no ambiente, e não apenas a eliminação direta dos animais. "Assim como ocorre com as baratas, o manejo de escorpiões exige uma abordagem integrada que considere não apenas a eliminação direta da praga, mas principalmente a modificação das condições ambientais que favorecem sua presença."
O primeiro ponto é o acesso, que envolve bloquear entradas para impedir que os animais cheguem ao interior das casas. "A limitação do acesso é o primeiro passo, já que os escorpiões se aproveitam de falhas estruturais, fissuras em paredes, soleiras mal vedadas, conduítes e ralos para ingressar nas residências."
O segundo pilar é o abrigo, que consiste em eliminar esconderijos. Por exemplo: pilhas de telhas, madeira, entulhos e frestas em muros ou paredes, locais onde os escorpiões costumam se esconder durante o dia.
Outro fator importante é o alimento. O biólogo explica que esses animais se alimentam principalmente de insetos, como baratas e grilos. "Controlar a disponibilidade de alimento é essencial para reduzir a atratividade do ambiente, já que os escorpiões se alimentam principalmente de insetos, sobretudo baratas e grilos."
Por fim, está o controle da água, já que ambientes úmidos favorecem a presença desses aracnídeos. "Evitar água acumulada, corrigir vazamentos, manter pisos secos e utilizar ralos com tampas eficientes são fundamentais para limitar a permanência da praga."
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