São mais de 60 anos dedicados ao conserto e à restauração de relógios. O comerciante Jair Venceto, 87 anos, superou o tempo e as mudanças em sua profissão, assim como observou o progresso de Piracicaba desde a metade do século passado até a atualidade. Sempre solícito e atencioso com seus clientes, o senhor Jair conta com orgulho sobre o ofício que aprendeu ainda nos anos de 1950.
Especialista em consertar relógios de parede, principalmente, ele ainda se mantém na ativa com uma clientela fiel e muitas histórias para contar. “É gratificante observar o sorriso dos clientes ao verem o relógio renovado e funcionando com perfeição”, conta o comerciante, que não pensa, pelo menos por hora, na aposentadoria. “Espero poder continuar prestando serviço à comunidade piracicabana por mais alguns anos ainda”, diz.
Nesta entrevista, ele conta ainda sobre seus clientes mais famosos, as mudanças de Piracicaba ao longo dos últimos 60 anos e os desafios para o futuro em seu ramo de atuação e no comércio em geral. “É a profissão na qual me realizo, que trouxe muita felicidade e prosperidade em minha vida”, afirma o comerciante. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista.
O senhor não nasceu em Piracicaba, mas veio para cá ainda adolescente, certo? Nasci em 1º de dezembro de 1938, na Fazenda Bom Jardim, em Rio das Pedras, local que pertenceu ao Barão de Serra Negra (Francisco José da Conceição) e que meu tio francês, Jean Ernest Damastè Marquè (tio Ernesto), que veio ao Brasil trabalhar no Engenho Central (Cia. Sucreriè), casou-se com minha tia Albertina, irmã de minha mãe, e acabou comprando a fazenda. Sou relojoeiro com muito orgulho. No início dos anos 50, meus pais resolveram deixar a fazenda e partir para Piracicaba. Compraram uma casa no Bairro Alto, em frente ao Colégio Dom Bosco, e aí passei minha adolescência, juventude até me casar. Não cheguei a estudar no Colégio Dom Bosco, mas frequentei o Oratório São Domingos Sávio. onde cultivei boa parte das minhas amizades e recebi excelente formação cristã e ensinamentos para a vida. Depois, já casado, com os filhos, eu e minha esposa, Cecília, ajudamos no Oratório como voluntários por muito tempo. Também, por mais de 25 anos toquei órgão na Paróquia do Bom Jesus do Monte, que até dois anos atrás e desde 1974, era administrada pelos Salesianos.
Como e quando o senhor iniciou sua profissão de relojoeiro? Comecei a trabalhar no Café Morro Grande, logo que meus pais, Jacob e Aurora, decidiram deixar a fazenda Bom Jardim e morar em Piracicaba. Isso no início dos anos 50. Eu tinha apenas 14 anos, isso em 1952. Estudei no então Grupo Escolar “Barão de Serra Negra”, em Rio das Pedras, onde concluí a 4ª. série do Curso Primário, em 14 de dezembro de 1950, na gestão do diretor Nelson Martins. Da fazenda até a escola eram muitos quilômetros, que no começo, eu fazia a pé; depois, me deram um burrinho e mais tarde uma bicicleta – o trecho ainda não tinha asfalto como hoje, era terra. Na época das secas, muito pó e na época das chuvas, muita lama. Sempre gostei de observar maquinários, engenhocas – muitas delas criadas pelo tio Ernesto na fazenda e depois, no Café Morro Grande. Por conta disso acabei me interessando por eletrônica. Ao me mudar para Piracicaba, decidi cursar Eletrônica para consertar rádios, num curso por correspondência, do então Instituto Monitor. Meu cunhado, Waldomiro Scarpari, no início dos anos 60, tinha a Relojoaria Scarpari, na Vila Rezende, e ao observar minha dedicação em aprender a consertar rádios, me convidou para aprender, com ele, a consertar relógios. Aceitei o convite. Então, sou relojoeiro há 66 anos. De lá para cá, nunca abandonei a profissão de relojoeiro. Assim que aprendi a consertar relógios, trabalhava o dia todo no Café Morro Grande e à noite, em casa, eu tinha uma pequena oficina montada num quartinho de madeira, no quintal. Ali permanecia das 18h até a meia noite consertando relógios despertadores e de parede. Depois, ia descansar um pouco para acordar antes das 7 no dia seguinte e dar conta do trabalho no Café Morro Grande. Foi uma época difícil, muito difícil. Animado com o sucesso do meu trabalho, em 1972 procurei um amigo, o Alcides Gomes Ferreira (Miguelito) e, na sociedade, abrimos a Relojoaria Santo Antonio, que existe até hoje na Rua Rangel Pestana, no Centro de Piracicaba. Aí, com a Relojoaria, deixei de trabalhar à noite em casa e comecei a trabalhar à noite, na Relojoaria. Meu filho mais velho, o Marcos se lembra das vezes que levou comida para mim na relojoaria. Continuei a trabalhar lá, das 18h até a meia noite. Inclusive, Marcos aprendeu comigo a consertar despertadores, mas preferiu cursar Jornalismo e seguir nessa profissão. Depois de muitos anos, deixei a sociedade na Relojoaria Santo Antonio, e, com meu filho mais novo, o Vanderlei, abrimos a Relojoaria Dom Bosco, em frente ao Terminal Central de Integração (TCI), na Rua D. Pedro I. Depois de mais alguns anos, fechamos essa relojoaria e compramos, a Relojoaria Alvorada de um sobrinho, ali na Rua XV de Novembro, 1141, esquina com a Rua José Pinto de Almeida, onde estamos estabelecidos há mais de 25 anos. Meu filho é especializado em consertos de relógios de pulso, eletrônicos, automáticos e a corda e eu, continuo com o conserto de relógios de parede, despertadores e de mesa.
Ao comparar com os dias atuais, há muita diferença? Sim. A começar pelo tamanho de Piracicaba, pela questão de segurança – naquela época era menos arriscado circular pela cidade à noite. Na minha área de atuação, relojoaria, eu destacaria o número de relojoarias que existiam na cidade naquela época. Eram poucas e o comércio forte ficava concentrado na Rua Governador, na avenida Rui Barbosa, um pouco na Rua do Rosário, na Paulista. Hoje são muitas relojoarias – algumas delas, como a nossa, também são óticas. Depois, antigamente, principalmente nas grandes fornituras de São Paulo, era fácil encontrarmos peças para os relógios de parede, despertadores e de pulso. Hoje, é um pouco mais difícil. Muitas fábricas fecharam as portas, e as que permanecem abertas, tendem mais a fabricar relógios e componentes descartáveis, ou com maquinários que usam mais o plástico e os recursos eletrônicos que o metal e os recursos mecânicos. Hoje, por exemplo, encontramos uma infinidade de relógios de parede, dos mais diversos tamanhos e variedade de mostradores, cores e formatos, com uma pequena máquina eletrônica descartável. Parou de trabalhar, simplesmente troca-se a máquina. Ao contrário dos relógios mecânicos, com aquelas fantásticas engenhocas, engrenagens etc, que permitem ao relojoeiro experiente trocar ou recondicionar componentes, até criar novas peças, limpar a máquina, engraxar/lubrificar, recuperar as caixas de madeira atacadas por cupins, umidade ou deterioradas pelo tempo. É o que faço ainda hoje. Relógios antigos, que passam de geração em geração, consigo deixá-los funcionando com perfeição de batidas como se fossem novos. Por exemplo, meu filho mais velho, Marcos tem, na casa dele, um relógio daqueles no formato de “8”, marca Ansônia, bem antigo de 1890 fabricado em New York- USA. Pertenceu ao avô da minha nora, Célia. Eu consegui recuperar a máquina e hoje o relógio funciona como novo, com as batidas perfeitas, numa caixa de madeira de lei, belíssima. Mais belíssima ainda é a máquina, com componentes originais. Enfim, o bom relojoeiro, assim como todos os bons profissionais, deve estar atento às mudanças, às necessidades do seu tempo. Eu conserto relógios antigos e os modernos. Aparecem mais relógios de parede do que relógios de mesa e despertadores.
Tem muitas histórias engraçadas de alguns clientes? Algum pedido inusitado? Sim, teria muitas. Me lembro de algumas delas. O cliente que ganhou um relógio antigo de família cuja caixa de madeira estava totalmente atacada por cupins e, ao pegá-la das mãos dele, a caixa simplesmente desmontou em nossas mãos. Outros, que levaram relógios antigos cheios de pequenas baratas, que deram muito trabalho para matá-las, dentro e fora da caixa de madeira. Me lembro também de vários clientes que levaram o relógio antigo de tradição familiar para consertar, com a caixa de madeira pintada à mão, com tinta a óleo. Nesses casos tive que orientá-los a tirarem aquela capa não original de tinta para recuperar os traços originais da madeira e do próprio relógio – ficam belos. Os clientes se assustam quando recebem o relógio restaurado. Nesse caso da pintura da madeira original da caixa, tenho que retirar a máquina dela, e encaminhá-la a um marceneiro de confiança para raspar, lixar e dar o acabamento parecido com o original na madeira. Enquanto recupero a máquina, o marceneiro recupera a caixa. É gratificante observar o sorriso dos clientes ao verem o relógio renovado e funcionando com perfeição.
Com tanto tempo de profissão, já teve alguns clientes famosos, não? Sim. Muitos. Consertei e conserto relógios de parede de muita gente famosa e de empresas e instituições. Consertei, por exemplo, relógio de parede do saudoso ex-prefeito Mendes Thame, do Dr. Bicudo, de juízes, promotores, advogados, médicos (inclusive que atendem a família), dentistas, delegados, policiais, empresários, além de muitas empresas. A título de curiosidade, consertei e restaurei o antigo relógio da Diretoria do Instituto Butantan na época que meu filho mais velho, o Marcos, que é jornalista, trabalhou lá. Foi uma honra enorme ter deixado o relógio de uma instituição tão importante, reconhecida mundialmente, em perfeito funcionamento. Enfim, temos na relojoaria, tanto eu, como meu filho, muitos clientes fiéis e famosos, aqui de Piracicaba, de Rio Claro, Charqueada, Tietê, São Pedro, Águas de São Pedro, e da minha terra natal, Rio das Pedras.
Sua loja fica em um ponto muito bom, na Rua XV de Novembro... Sim. Seria a terceira loja da minha história profissional (Rua XV de Novembro, 1141 – esquina com a rua José Pinto de Almeida – fone: 3402-8080). Como eu disse anteriormente, comecei a trabalhar ainda adolescente e nunca mais parei... dia e noite, muitas vezes enfermo, muitas vezes cansado, mas nunca desisti. Tenho o que tenho hoje graças a todo esse esforço. E não me arrependo das dificuldades que enfrentei. Sou cristão, católico praticante. Tenho muita fé em Dom Bosco, Santo Antonio (por incrível que pareça, meu filho mais velho, o Marcos, nasceu no dia de Santo Antonio), em São Judas Tadeu e em Nossa Senhora com o título de Aparecida e Auxiliadora dos Cristãos, que intercedem por nós perante Deus, Jesus Cristo com a luz do Espírito Santo.
O senhor é um exemplo de uma pessoa que conquistou tudo com o trabalho. Pretende ficar quanto tempo ainda na ativa? Bem, trabalho desde meus 14 anos. Portanto, há 74 anos. Estou um pouco cansado pelo peso da idade e algumas limitações que aparecem no decorrer na nossa existência. Aos poucos a gente vai “tirando o pé do acelerador”, reduzindo a carga de trabalho, mas espero, com a graça de Deus e dos santos que por nós intercedem, poder continuar prestando serviço à comunidade piracicabana por mais alguns anos ainda.
O senhor se sente realizado na profissão? Com certeza. É a profissão na qual me realizo, que trouxe muita felicidade e prosperidade em minha vida. Porém, não posso deixar de ser grato aos meus patrões na época do Café Morro Grande, que confiaram em minha pessoa e em minha capacidade.
Quais as dicas que o senhor daria para um comerciante em início de carreira? Bom, como dica aos iniciantes comerciantes, eu deixo as seguintes: que dediquem muito tempo ao negócio, com sabedoria e “pés no chão”. Que comecem do básico para atingir o extraordinário, o diferencial. É na prática diária, no dia a dia, que vamos descobrindo os caminhos para o sucesso. E importante: não se esqueçam de observar os clientes e dialogar muito com eles. Hoje existem ferramentas de comunicação das mais variadas para isso. E por fim, não deixem de fazer publicidade do seu comércio, do seu serviço.
Durante todo esse tempo de trabalho, quais as mudanças mais significativas que houve em Piracicaba? Ao longo desses 60 anos de profissão, em Piracicaba, de mudanças, começo pelo número de relojoarias. Quando comecei a trabalhar com relógios, eram poucas as relojoarias na cidade, 3 ou 4. Hoje são muitas. Cada uma com sua história de vida, com sua tradição. Algumas ainda de famílias, outras, “importadas” de outras cidades. Chagamos a ter no final dos anos 70, início dos anos 80, se não me engano, em Piracicaba, uma Associação de Joalheiros e Relojoeiros. Me lembro que tínhamos reuniões periódicas na antiga sede da Acipi, ainda na rua Governador e os jantares mensais de confraternização, onde a Seiko, por exemplo, enviava um representante e sorteava relógios de pulso femininos e masculinos entre os participantes – minha esposa, Cecília ganhou um relógio de pulso feminino num desses jantares. A Piracicaba dos anos 50, 60, já não é mais a mesma. Cresceu muito. Surgiram novos centros comerciais nos bairros, surgiu o shopping, surgiram as compras on-line, as lojas dos chineses. A atividade comercial foi ganhando outros elementos. Vejo isso de forma positiva e ao mesmo tempo preocupante. São sinais dos tempos, não escapamos disso. Muita tecnologia, porém, pouco relacionamento interpessoal. E no comércio, esse tipo de relacionamento acho imprescindível. Enfim, Piracicaba continua crescendo e oferecendo espaço a todos. Os que tiverem sabedoria e conseguirem vencer os espinhos criados pelos nossos governantes e legisladores, as armadilhas e exigências do mercado e as necessidades dos próprios clientes, consegue sobreviver.
Como o senhor analisa a situação de Piracicaba e do Brasil atualmente? Gostaria de fazer um parêntesis a respeito da situação na qual nosso país se encontra e que ressoa também aqui em Piracicaba. Não é das melhores. Tentam nos enganar, ocultar informações (com o tal do sigilo de 10, 20, 100 anos) ou divulgar dados irreais e falsos. Muitos comércios fechando as portas – observem os prédios comerciais da região central. “Aluga-se” – “Vende-se” aos montes – triste e preocupante cenário. Muitas empresas saindo do Brasil e indo para o Paraguai. Não aguentam mais a carga tributária, as taxas, a exploração governamental respaldada por uma política administrativa e tributária arcaica, que precisa urgentemente de uma reforma total. Não há incentivo algum ao empreendedor, ao comerciante. O desgoverno atual, que tanto se gaba de dizer que tirou o país da pobreza e da fome, mente descaradamente. Entra um sai outro, entra direita, entra esquerda, e a pobreza não desaparece – obviamente, mais acentuada nas gestões da esquerda cujo objetivo é sempre contrário aos objetivos de uma nação que precisa crescer, prosperar. Não é com um benefício social (eleitoreiro/interesseiro/ideológico) ou com discursos no Congresso que vão consertar isso. Precisamos de mais resultados e menos blá-blá-blá. Tanto é que vejo pessoas nas ruas, em situação precária, com fome, com sede, sem um teto, há muitos e muitos anos. O Brasil está carente de líderes, de pessoas comprometidas com o povo e a nação! Enquanto tiver uma dessas pessoas nessas condições desumanas, não acreditarei em nenhum resultado. Por outro lado, a melhor forma do nosso país sair desse buraco histórico, crônico, é via trabalho, muito trabalho. Justamente o que ocorre hoje, ao contrário, onde milhões de brasileiros vivem de programas sociais de um desgoverno ideológico, irresponsável, incompetente, que, ao invés de incentivar o trabalho, está destruindo o trabalho, as relações de trabalho. E tem mais. Qual incentivo esse desgoverno, os governantes em geral, oferecem aos jovens que entram numa faculdade e saem dela depois de 4, 5 anos? Essas novas gerações de profissionais, além de terem que enfrentar o mercado com vagas escassas, precisam enfrentar os desafios da tecnologia, como por exemplo dessa tal de Inteligência Artificial (I.A.) que nada mais é que um computador mais avançado querendo tomar conta da nossa existência, com o comando de um ser humano. São fantásticos os recursos da I.A., mas considero-os verdadeiros “Cavalos de Tróia” para a humanidade e para os profissionais e futuros profissionais. Não sejamos hipócritas, a I.A vem para nos roubar o que temos de mais valioso, o talento, o dom, a criatividade, a vontade de crescer numa área, numa profissão. Por fim, gostaria aqui de mencionar o famoso Curso de Liderança, Comunicação e Relações Humanas que fiz com o saudoso mestre, Prof. Mauro Pereira Vianna nos idos de 1971. Me ajudou a superar muitos obstáculos em minha vida profissional e particular. De vez em quando consulto as lições e ensinamentos das apostilas transformadas em livros.
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