O dia 13 de março marca o Dia Mundial do Sono, uma data criada pela World Sleep Society para conscientizar a população sobre a importância de dormir bem para manter a saúde e a qualidade de vida. A campanha é realizada anualmente em diversos países e, em Franca, tem sido liderada pelo neurologista e especialista em medicina do sono Marco Aurélio Ubiali, que atua na área desde 1991.
Delegado da campanha internacional há dois anos, Ubiali recebeu em 2025 o Prêmio Emérito do World Sleep Day, reconhecimento concedido a profissionais que desenvolvem iniciativas de conscientização sobre a importância do sono.
Segundo o médico, apesar de ser uma necessidade biológica fundamental, o sono ainda é um tema pouco valorizado pela população e até por parte da comunidade médica.
“O sono é um fenômeno universal. Todo mundo dorme: ricos, pobres, qualquer pessoa. E é algo impositivo. Quando o sono chega, a pessoa pode dormir em qualquer lugar, até durante uma entrevista ou dirigindo. Mesmo sendo tão essencial, ainda damos pouca atenção aos problemas relacionados ao sono”, afirma Ubiali.
Problemas de sono podem desencadear doenças
De acordo com dados da World Sleep Society, até 45% da população mundial apresenta algum tipo de problema relacionado ao sono, mas grande parte dessas pessoas não recebe diagnóstico ou tratamento adequado.
Na avaliação do neurologista, essa falta de atenção pode trazer consequências sérias para a saúde.
“Quando o sono não está adequado, várias doenças podem surgir ou se agravar. A pressão alta, por exemplo, fica muito mais difícil de controlar em pessoas que têm distúrbios do sono. Também podem ocorrer arritmias cardíacas, AVC, alterações metabólicas como aumento do colesterol e da glicemia, além de quadros depressivos”, explica.
Segundo ele, muitos pacientes procuram atendimento para tratar diferentes sintomas sem perceber que a origem do problema pode estar justamente no sono.
“No consultório, vemos pessoas tomando vários medicamentos para problemas diversos, quando a causa principal pode ser um distúrbio do sono ainda não identificado”, afirma.
Insônia e apneia estão entre os distúrbios mais comuns
Entre os problemas mais frequentes está a insônia, que pode afetar entre 10% e 30% da população adulta em algum momento da vida.
Outro distúrbio bastante comum é a apneia obstrutiva do sono, caracterizada por interrupções na respiração durante o sono e frequentemente associada ao ronco intenso.
De acordo com Ubiali, alguns sinais podem indicar que a pessoa precisa procurar avaliação médica.
“Se a pessoa ronca muito, acorda cansada, sente sonolência durante o dia, dorme facilmente assistindo televisão ou lendo um livro e não consegue se concentrar, isso pode ser um sinal de que há um problema no sono”, alerta.
Nesses casos, a recomendação é buscar orientação médica para investigação adequada.
Polissonografia ajuda no diagnóstico
O exame considerado padrão para avaliação do sono é a polissonografia, que monitora diversas funções do organismo durante a noite, como atividade cerebral, respiração, batimentos cardíacos e movimentos musculares.
Segundo o especialista, o exame pode ser feito em laboratório ou em casa, dependendo da necessidade de cada paciente.
“A polissonografia realizada em laboratório é o exame mais completo, porque permite avaliar com precisão o funcionamento do cérebro, da respiração, do coração e dos movimentos corporais durante toda a noite”, explica.
Há também exames mais simples utilizados como triagem, mas que não substituem uma avaliação completa quando há suspeita de distúrbios mais complexos.
Tratamento pode envolver mudanças de hábitos
O tratamento dos distúrbios do sono varia de acordo com o diagnóstico e pode incluir desde mudanças de hábitos até o uso de dispositivos específicos.
Entre as medidas mais comuns está a chamada higiene do sono, que inclui manter horários regulares para dormir e acordar, reduzir o uso de telas antes de dormir, manter o ambiente escuro e silencioso e evitar estimulantes à noite.
Em alguns casos, podem ser indicados aparelhos como CPAP ou BiPAP, que auxiliam na respiração durante o sono, principalmente em pacientes com apneia.
Também podem fazer parte do tratamento acompanhamento psicológico, terapia cognitivo-comportamental para insônia, além de exercícios fonoaudiológicos para fortalecer a musculatura da boca e da garganta.
Ritmo biológico influencia a qualidade do sono
Outro fator importante destacado pelo especialista é o ritmo circadiano, que regula o funcionamento do organismo ao longo de aproximadamente 24 horas.
Esse ritmo está relacionado à liberação de hormônios como o cortisol, durante o dia, e a melatonina, durante a noite, ambos influenciados pela exposição à luz.
“Durante o dia é importante ter bastante luz, abrir as janelas, sair ao sol. Já à noite o ideal é diminuir a iluminação. A luz forte, principalmente no quarto, pode interferir na produção de melatonina e dificultar o sono”, orienta Ubiali.
Segundo ele, cada pessoa também possui um perfil biológico diferente. Algumas são mais produtivas pela manhã, enquanto outras apresentam melhor desempenho à tarde ou à noite.
Sono é fundamental para o desenvolvimento infantil
O especialista ressalta que o sono é especialmente importante para crianças e adolescentes, pois está diretamente ligado ao crescimento e ao desenvolvimento cerebral.
“Durante o sono ocorre a liberação do hormônio do crescimento. Se a criança não dorme bem, isso pode afetar o desenvolvimento físico e cognitivo”, explica.
Distúrbios do sono também podem causar sintomas que lembram transtornos como déficit de atenção e hiperatividade, o que pode gerar diagnósticos equivocados.
“Já vimos crianças com suspeita de TDAH e até autismo que, na verdade, tinham problemas de sono. Depois do tratamento adequado, o comportamento se normalizou”, afirma.
Sonhar faz parte do funcionamento do cérebro
Outro aspecto abordado pelo médico é a importância dos sonhos. Segundo ele, todas as pessoas sonham várias vezes durante a noite, mesmo que não se lembrem disso ao acordar.
“O sonho faz parte do funcionamento normal do cérebro. É nesse momento que o cérebro faz uma espécie de ‘limpeza’, descartando informações desnecessárias e consolidando memórias importantes”, explica.
De acordo com o neurologista, dormir bem é essencial para quem precisa aprender, estudar ou exercer atividades intelectuais.
“Quem quer pensar, escrever, estudar ou trabalhar bem precisa dormir e precisa sonhar. O sonho ajuda a organizar as informações e a fixar a memória”, afirma.
Campanha reforça importância de cuidar do sono
Em 2026, o tema internacional da campanha é “Sleep Well, Live Better” (Durma bem, viva melhor), reforçando a ideia de que o sono é um dos pilares da saúde, ao lado da alimentação equilibrada e da prática de atividades físicas.
Para o especialista, a principal mensagem do Dia Mundial do Sono é simples, mas essencial.
“Muitas pessoas convivem com problemas de sono por anos sem procurar ajuda. A campanha existe para lembrar que dormir bem é fundamental para a saúde e que muitos distúrbios têm tratamento”, conclui.
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