Na véspera da morte da mãe, a filha de 7 anos da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, encontrada morta com um tiro na cabeça em São Paulo, chegou chorando e pedindo para não voltar para casa, segundo depoimento da avó prestado à Polícia Civil.
O documento integra o inquérito que investiga o caso e foi obtido por OVALE.
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De acordo com o relato, na noite do dia 17 de fevereiro, a criança disse aos avós que não aguentava mais as brigas e os gritos que o padrasto, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, dava contra a sua mãe. Gisele morreu no dia 18 de fevereiro, com um tiro na cabeça.
O tenente-coronel, que é natural de Taubaté e tem residência em São José dos Campos, passou a ser investigado no inquérito que apura a morte da policial.
O depoimento da mãe de Gisele foi colhido no 8º Distrito Policial do Brás, na capital paulista, e integra a investigação sobre a morte da policial de 32 anos, ocorrida no apartamento onde ela morava com o oficial, na zona sul da cidade.

Segundo a mãe da vítima, a menina foi levada à casa dos avós pelo pai biológico no dia 17 de fevereiro. Ao chegar ao local, estava muito abalada. "Ela chorava muito e dizia que não queria voltar para a casa, porque não aguentava mais as brigas e os gritos do padrasto com a mãe”, relatou a avó no depoimento.
A criança passou a noite na casa dos avós e foi entregue ao pai no dia seguinte, pouco antes de a família ser informada sobre a morte da policial.
Depoimento descreve relacionamento marcado por conflitos
No depoimento, a mãe de Gisele afirmou que o relacionamento da filha com o tenente-coronel começou de forma tranquila, mas que cerca de um ano depois ela passou a relatar comportamentos agressivos e controladores do companheiro.
Segundo ele, a policial dizia que o marido era extremamente ciumento e que qualquer situação que o contrariasse resultava em gritos ou xingamentos.
O depoente também afirmou que o oficial ligava com frequência para saber onde a esposa estava, demonstrando comportamento possessivo.
Em um episódio citado no depoimento, o militar teria se exaltado durante uma discussão na casa da família. “Quem manda sou eu. Quem banca tudo é o papai”, teria dito, segundo o relato.
Vídeo com arma na cabeça após discussão
A família de Gisele também afirmou que, no ano passado, após uma discussão, o tenente-coronel enviou um vídeo apontando uma arma para a própria cabeça, afirmando que se mataria caso Gisele terminasse o relacionamento.
Segundo o depoimento, a policial enviou o vídeo para familiares, mas o apagou depois de uma possível reconciliação. Apenas o irmão dela teria mantido o arquivo.
Após o episódio, o pai disse que passou a temer pela segurança da filha.“Mesmo que você queira sair desse relacionamento, ele não vai deixar”, afirmou ter alertado na época.
O depoimento também relata um episódio ocorrido na noite de 13 de fevereiro, poucos dias antes da morte.
Segundo o pai, Gisele ligou chorando e pediu que os pais fossem buscá-la no apartamento. Ao encontrá-la em frente ao prédio, ela teria desabafado que estava cansada das agressões psicológicas.
Apesar disso, decidiu permanecer no local naquela noite para retirar seus pertences no dia seguinte.
Investigação ganhou novos elementos
Inicialmente registrada como suicídio, a morte da policial passou a ser tratada como morte suspeita após novos depoimentos e laudos periciais.
Entre os pontos analisados está o intervalo de 29 minutos entre o disparo ouvido por uma vizinha e o momento em que o tenente-coronel acionou a Polícia Militar.
A investigação ganhou novo capítulo após a exumação do corpo da policial militar e a emissão de um novo laudo necroscópico pelo IML (Instituto Médico Legal).
O documento aponta lesões contundentes na face e na região cervical da vítima, compatíveis com pressão feita por dedos e arranhões provocados por unhas — conhecidos tecnicamente como “estigma ungueal”.
O exame foi realizado um dia após a exumação do corpo e emitido no último sábado (7). Tanto esse laudo quanto o primeiro exame, feito em 19 de fevereiro, apontam que a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico grave provocado por disparo de arma de fogo.
No laudo inicial já havia menção a marcas na face e no pescoço descritas como “estigmas digitais”, caracterizadas por lesões equimóticas arredondadas compatíveis com pressão feita com os dedos.
Também foram registradas lesões superficiais em formato de meia-lua, indicativas de arranhões causados por unhas.
Depoimento de socorrista levanta dúvidas
O depoimento de um socorrista com 15 anos de experiência também levantou questionamentos sobre a versão apresentada pelo oficial.
Segundo ele, a arma estava “bem encaixada” na mão da vítima, algo que considerou incomum em casos de suicídio. O profissional decidiu fotografar o local.
Ele relatou ainda que o tenente-coronel estava completamente seco, sem sinais de que havia saído do banho (versão apresentada pelo militar ao afirmar que a esposa teria se matado enquanto ele estava no banheiro).
O socorrista também observou que o chuveiro estava ligado, mas não havia poças de água no chão ou no corredor. Além disso, o oficial não apresentava manchas de sangue, o que poderia indicar que não teria prestado socorro diretamente.
Outro detalhe citado foi que o quarto da suíte estava desarrumado, com objetos espalhados pelo chão, sugerindo a possibilidade de um embate antes do disparo.
Cena do apartamento foi alterada
Laudos da Polícia Científica apontaram ainda que a cena do crime não foi preservada adequadamente, o que comprometeu parte da perícia inicial.
Em depoimento, a inspetora de condomínio Fabiana Capinan de Carvalho Pereira afirmou que três policiais militares femininas entraram no apartamento horas após a ocorrência para realizar a limpeza do imóvel.
Segundo ela, ainda havia sangue na sala, resultado das manobras de reanimação realizadas pelos socorristas.
A mesma testemunha relatou ter ouvido o tenente-coronel dizer que a esposa “não vai sobreviver”, enquanto equipes médicas ainda tentavam salvá-la.
De acordo com o depoimento, o oficial caminhava pelo corredor do prédio sem camisa e sem manchas de sangue, dizendo que a esposa havia se dado um tiro.
Quando uma policial informou que Gisele ainda estava viva, ele teria afirmado: “Com o tiro que ela levou, não vai sobreviver.”
Entre as ligações feitas pelo oficial naquela manhã, uma chamou atenção da família da vítima: o contato com o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
Segundo o inquérito, o magistrado chegou ao prédio às 9h07, subiu ao apartamento com o oficial e deixou o local cerca de 11 minutos depois.
Outro lado
A defesa do tenente-coronel afirma que ele tem colaborado com as autoridades. Já a defesa do desembargador informou que ele esteve no local como amigo e que prestará esclarecimentos à polícia.
Em nota, a Polícia Militar afirmou que acompanha as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Corregedoria e que tomará as medidas cabíveis caso irregularidades sejam confirmadas.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que todas as circunstâncias da morte da policial seguem sendo apuradas.
Um novo laudo do Instituto Médico Legal também apontou lesões na face e no pescoço da vítima, compatíveis com pressão de dedos e arranhões provocados por unhas. A Polícia Civil segue reunindo depoimentos e analisando provas no inquérito.
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