Mais um ano se inicia e, curiosamente, tudo está igual e, ao mesmo tempo, tão diferente. Embora a vida humana seja regida por números, por signos, símbolos e rótulos, a passagem do tempo se faz pelas bordas, pelas frestas que não percebemos, transformando pães em migalhas, momentos em fragmentos de memórias.
Em geral, não costumo lamentar pelo tempo, mas admito que a vaidade se abala quando se defronta com fotos repletas de juventude, alheia e própria. Nada, entretanto, compara-se às ausências insuperáveis que as fotos antigas escancaram. Difícil resistir a certa nostalgia, à saudade que nos relembra da fragilidade do hoje, da existência que, tolos, julgamos eterna.
Tios, avós, primos, sobrinhos e amigos, tantos deles no passado, vivendo apenas nas memórias, eternizados em instantes posados, compondo a história das nossas vidas, como, um dia, também o faremos, para aqueles que virão. É o ciclo da vida, implacável, renovável, indomável.
Neste instante, iniciamos 2026. O mundo, segundo alguns, já teria se acabado há décadas, mas seguiu. Quem chegou até aqui superou pandemias, algumas guerras, violência urbana, enfermidades, entre outros tantos perigos. Somos, acima de tudo, sobreviventes de guerras externas e internas. E se aqui estamos, temos o desafio de começar de novo, de dar significado ao que virá. Se tivermos sorte, 2027 estará logo ali, aguardando por nós, na virada do ano, da esquina, da página.
Então, se ganhamos mais uma chance, quando tantos outros terminaram suas jornadas, é sinal de que ainda temos o que fazer, que viver, que sentir. Que esse ano seja novo em projetos, em esperanças, mas que preserve o que todos os outros nos municiaram de bom. Se pararmos para fazer uma lista, a maioria de nós terá, cada qual a seu jeito, dentro das expectativas e realidade própria, experenciado mais vitórias do que fracassos.
Um dos problemas, ao meu sentir, é que somente nomeamos de vitórias os grandes feitos, classificando as vivências em um pódio de exigências e convenções sociais, esquecidos de que a vida é composta de muito mais do que isso. As melhores vitórias se escondem em sorrisos espontâneos, inesperados. A vida real ocorre longe das lentes, embora elas possam registrar instantes importantes, menos para nos expor ao alheio, mas para nos recordar daquilo que a mente humana não dá conta de armazenar.
Que a retrospectiva, ainda que traga eventuais lágrimas, seja capaz de nos impulsionar rumo ao futuro, ao tempo que, de novo, deita-se aos nossos pés, repleto de possibilidades. Viver é privilégio, é benção, mesmo diante do que não entendemos e/ou controlamos. Navegar, meus amigos, é preciso. O mar de 2026 se abre diante de nós. Boa viagem!
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