Araçatuba

Depressão e tentativas de suicídios aumentam com festas de fim de ano

Por Da Redação |
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PSICÓLOGA Joice Cozza ressalta a importância do acompanhamento psicológico (Foto: Divulgação)
PSICÓLOGA Joice Cozza ressalta a importância do acompanhamento psicológico (Foto: Divulgação)

DEPRESSÃO Sentir-se triste no final do ano é mais comum do que se pensa

Com a chegada do fim de ano, período onde um clima de festas e confraternizações se instaura no ar, para muitos, o que pode ser uma das melhores épocas, para outros pode ser bastante frustrante. Você se depara o tempo todo com votos de felicidades, paz, união, quando na verdade o que sente é desânimo, tristeza, desesperança.

Muitas vezes esses votos acabam exercendo uma pressão ainda maior sobre você, que acaba se culpando por se sentir dessa forma quando na verdade deveria estar alegre, animado. Para não “estragar” o clima, você acaba abafando esses sentimentos, dá um sorriso amarelo e repete mecanicamente os mesmos votos àqueles que estão à sua volta, na esperança de que todo esse ritual acabe logo e a rotina volte ao normal.

O Natal sempre está associado a coisas boas como presentes, reuniões de amigos e família. O tempo todo somos bombardeados por campanhas natalinas que nos colocam em contato com essa festividade. Geralmente são nas festividades de fim de ano que encontramos aquela pessoa da família que nos magoou e somos obrigados a reencontrar e fingir não haver ressentimentos em nome do espírito natalino, aquele familiar ou amigo querido que se afastou e não nos procura mais, a lembrança de um tempo passado, onde as coisas pareciam melhores. Enfim, esse período nos coloca diante de encontros físicos e emocionais indesejados, os quais muitas vezes não nos sentimos preparados para encarar.

É comum que ao final de cada ano, quando paramos para fazer um balanço de um ciclo que está se fechando, esse ciclo nos faça refletir sobre o que fizemos de bom e ruim. O que mudou em nossas vidas e o que desejamos de diferentes daqui pra frente.

Muitas pessoas, apesar de terem vivido coisas boas, ainda sim, se sentem desmotivadas por não conquistar tudo que gostariam, ou têm a sensação de que poderiam ter conquistado muito mais.

Mas, infelizmente, sentir-se triste no final do ano é mais comum do que se pensa. Nesse período, muitas pessoas experimentam melancolia e até depressão. Hospitais e forças policiais registram aumento de suicídios e tentativas. Psicólogos e psiquiatras também observam aumento da procura de pessoas com queixa de depressão em seus consultórios. No Centro de Valorização da Vida (CVV), organização não governamental que oferece apoio emocional e prevenção do suicídio 24 horas por dia, o número de ligações recebidas costuma aumentar em média 15% no mês de dezembro.

O suicídio tem por definição um ato deliberado executado pela própria pessoa, cuja intenção é causar a própria morte, de forma consciente e intencional, através de meio que acredita ser letal. Faz parte do que se chama comportamento suicida: os pensamentos, os planos e a tentativa de suicídio.

ESTATÍSTICAS

No Brasil são registrados aproximadamente 12 mil suicídios todos os anos e mais de um milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade, que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Dados indicam que 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e do abuso de substâncias.

Com esses números, o suicídio encontra-se entre as três principais causas de morte em indivíduos com idade entre 15 e 29 anos no mundo. O Brasil é um país com taxas crescentes, apesar da escassez de indicadores epidemiológicos, corresponde a mais de 5% das mortes por causas externas.

Todos os anos, o suicídio aparece entre as 20 principais causas de morte no mundo, para pessoas de todas as idades. Só ele é responsável por mais de 800.000 mortes. O que equivale a um suicídio a cada 40 segundos.

Toda vida perdida representa um parceiro, um filho, um pai, um amigo ou um colega de alguém e para cada suicídio, aproximadamente 135 pessoas sofrem intensamente. Para cada suicídio, 25 pessoas fazem uma tentativa e muitas mais pensam seriamente nele. Isso equivale a 108 milhões de pessoas por ano sendo profundamente afetadas pelo comportamento suicida.

PREVENÇÃO

Uma das primeiras medidas preventivas é tornar o assunto público, ou seja, conversar sobre ele e quebrar tabus que ainda, e infelizmente, existem. Buscar informação é o diferencial! Precisamos falar sobre o suicídio durante o ano inteiro. Só assim, familiares e amigos poderão oferecer ajuda da maneira mais adequada.

Quem está pensando em cometer suicídio não quer se matar, mas acabar com a dor insuportável que está sentindo. Se você notar que precisa de ajuda, o CVV disponibiliza uma linha de apoio gratuita e nacional pelo número 188. Além da linha, também é possível conversar por e-mail ou por um chat 24 horas. Todas as ligações e conversas são mantidas em sigilo.

A prevenção do suicídio não se limita à rede de saúde, devendo ir além dela, sendo necessária a existência de medidas em diversos âmbitos na sociedade, que poderão colaborar para a diminuição das taxas de suicídio. A prevenção deve ser também um movimento que leve em consideração os aspectos biológico, psicológico, político, social e cultural, no qual o indivíduo deve ser considerado como um todo em sua complexidade.

NÚMEROS EM ARAÇATUBA

De acordo com dados prestados pela Escrivã Chefe da Delegacia Seccional de Polícia de Araçatuba, Viviane Gama Chagas Gagliardo, este é o levantamento dos dados de números de suicídios em Araçatuba nos últimos cinco anos:

2017: 33 casos

2018: 34 casos

2019: 45 casos

2020: 29 casos

2021: 41 casos até o momento

A reportagem da Folha da Região conversou sobre o assunto com a Psicóloga Joice Cozza, docente do curso de psicologia no Unisalesiano, mestre em Ciência pela Faculdade de Medicina da USP, doutoranda em Educação pela UNESP de Marília e especialista em violência contra crianças e adolescentes pela USP.

ACOMPANHE A ENTREVISTA:

FR: O período de fim de ano é realmente um período com tendências maiores para o cometimento de suicídio?

Segundo levantamentos da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e da OMS (Organização Mundial da Saúde), as taxas de suicídio cresceram 24% no Brasil entre 2006 e 2015, entre pessoas de 15 a 24 anos no mês de dezembro. Um dado importante é que em 2017, o CVV divulgou que, no mês de dezembro, principalmente nesse período de festas, as ligações de pessoas pedindo ajuda costumam aumentar 15%.

FR - A cidade de Araçatuba apresenta por ano uma média de 40 suicídios. No município existe alguma instituição ou programa público voltado a discutir e tratar pessoas com depressão? Se sim, quais?

Sim, os índices são altíssimos. Somente em novembro foram mais de oito suicídios notificados. Não existe um serviço único, mas a RAPS (Rede de Apoio Psicossocial) formada por órgãos de saúde e assistência social que recebem e acolhem essa demanda. São eles: CAPS III- (Centro de Apoio Psicossocial) focado na população em geral, CAPS ad- álcool e drogas, CAPSi- infantil, UBS, Pronto Socorro, Ambulatório de Saúde Mental, CRAS (Centro de Referência em Assistência Social), CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), organizações sociais e o CVV que não existe em Araçatuba, mas que recebe ligações de todo país pelo telefone 188.

Como supervisora de estágios no Unisalesiano, posso citar a clínica escola do curso de Psicologia, lá temos uma demanda significativa. Atendemos em formato de plantão psicológico em casos de emergência, em psicoterapia continuada e em psicodiagnóstico, com público infantil, adolescente e adulto, incluindo modalidade presencial e atendimento online.

FR- A pandemia chegou a mexer de forma preocupante com o emocional da população, a ponto de acender uma luz de alerta?

Durante a pandemia, houve um aumento significativo na procura das pessoas para o atendimento psiquiátrico e psicológico, inclusive online, desde indivíduos que nunca apresentaram questões psiquiátricas até os que já estavam de alta e tiveram que retomar o tratamento neste momento difícil. Com a questão do isolamento social, mesmo em nosso país, cujas medidas não foram tão restritas, ainda há muitas pessoas que se mantêm reclusas, apresentando um medo muito grande acerca do vírus ou de infectar a si mesmos e/ou terceiros. Houve um aumento significativo nos casos de ansiedade, depressão e quadros de pânico, principalmente.

FR - O que fazer ao perceber alguém com tendência a cometer suicídio?

É um comportamento com determinantes multifatoriais e resultados de uma complexa interação de fatores psicológicos e biológicos, inclusive genéticos, culturais e socioambientais. Dessa forma, deve ser considerado como o desfecho de uma série de fatores que se acumulam na história do indivíduo, não podendo ser considerado de forma causal e simplista apenas a determinados acontecimentos pontuais da vida do sujeito. É a consequência final de um processo.

FR - A internet vende um mundo onde todos se apresentam belos e felizes, isso pode ser um fator a mais para estimular baixa auto-estima? Como desfazer esse imaginário?

Sim, estudos comprovam a relação do uso das redes sociais e o aumento dos casos de depressão e de ansiedade. Oferecer políticas públicas de educação para a vida de qualidade, sobretudo direcionadas aos adolescentes é necessário para que se reinvente e se ressignifique a vida fora das redes sociais. O investimento da família na família também é importante nesse processo.

FR - Hoje vivemos em uma sociedade muito violenta e com grandes dificuldades de subsistência. Fatores como esses podem levar um individuo com tendências ao suicídio a sensação de que viver não valha à pena? E por isso vir a cometer suicídio?

Não vejo assim. Esse fenômeno é um dos elementos da existência humana e devemos olhá-lo com dignidade e muito respeito pelas pessoas que, de alguma forma se vêem numa situação de sofrimento psíquico tão significativo que não conseguem enxergar outra perspectiva além do morrer. A pessoa que tem ideação suicida quer matar o sofrimento advindo de vários fatores como já mencionados.

Intervenções eficazes para prevenir o suicídio estão disponíveis. Em um nível pessoal, a detecção precoce e o tratamento da depressão e dos transtornos por uso de álcool são essenciais para a prevenção ao suicídio, bem como o contato de acompanhamento com aqueles que tentaram o suicídio e o apoio psicossocial nas comunidades. Se uma pessoa detectar sinais de suicídio em si mesmo ou em alguém que conhece, deve procurar a ajuda de um profissional de saúde o mais rápido possível.

*com informações do Viva Bem/Uol

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