Montagem se estruturou a partir de cartas escritas pelo dançarino e ator à sua mãe
Araçatuba
Da redação
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Um processo sofrido, porém, permeado pela beleza que está atada ao sentimento de saudades daqueles a quem amamos, mas que já partiram.
A construção dramatúrgica de “Cartas para Irene”, espetáculo de dança e teatro protagonizado por Oscar Capucho, e que estreiou ontem (25), se deu a partir desses pilares, erguidos a partir de uma proposta de reacender, por meio da escrita de cartas, a relação do ator e dançarino com sua mãe, Irene, falecida em abril de 2012.
Produção da Ananda Cia. de Dança Contemporânea, com direção de Anamaria Fernandes, "Cartas para Irene" terá, ainda, outra apresentação hoje (26), às 19h. O acesso será gratuito, pelo canal da companhia no YouTube.
CRIAÇÃO
Anamaria Fernandes conta que tudo começou em uma conversa que ela teve com Oscar, em sua casa, "tomando uma taça de vinho". "Naquele dia, ele contava como a sua mãe, Irene, foi importante em sua vida, em momentos como quando perdeu a visão (Capucho ficou cego aos 9 anos, devido a um descolamento de retina).
Também contou o papel que ela desempenhou na construção do homem que ele é hoje. E aí, escutando ele falar, veio esse desejo de construir um espetáculo. Pouco tempo depois, veio a ideia dessas cartas, escritas por ele, nas quais ele conversaria com ela". Esse processo, vale dizer, teve início em julho do ano passado. "No espetáculo, ele interpreta essas cartas", conta a diretora.
Capucho se recorda de que ia escrevendo as missivas e guardando-as em uma caixa. "Porque fui escrevendo em tempos diferentes, momentos diferentes, me alternando entre dias e meses - ao todo, foram oito meses".
Quando os ensaios online tiveram início, ele começou a abrir os envelopes e, depois, começou a dançar, "trazendo essa dramaturgia de movimento e texto". Evidentemente, não foi um processo fácil.
"Foi doído. Eu chorava, chorava muito na abertura delas, e também quando estava desenvolvendo essas cenas, pela fato de trazerem muita memória, muitas lembranças, e de mexerem nesse lugar de saudades da minha mãe. Agora controlo mais a emoção - com o tempo, a gente vai amadurecendo essas relações de corpo e sentimentos. Mas sim, ainda tem lágrimas, ainda tem muita emoção", assume ele.
MENSAGEM
Ao fim, Capucho entende que a mensagem é a exaltação de uma mulher forte, sábia, inteligente. "Que soube conduzir muito bem a vida de um filho cego e gay. Que me educou, cuidou muito bem de mim e me preparou para o mundo. Permitiu que eu pudesse alçar voos por sempre ter acreditado em mim, mesmo sabendo que não seria fácil. E a eduçação dela sempre foi nesse lugar, da orientação de que eu poderia tudo - lógico, sendo esse 'tudo' conquistado com caráter, sem passar por cima de ninguém, coerente com a educação que ela me deu".
A perda da visão, lembra o ator e dançarino, nunca esmoreceu a genitora. "Em vez de ela de repente querer proteger esse filho e colocá-lo num lugar de vulnerabilidade, potencializava as coisas boas, os meus pontos positivos. Por isso falo dela com muito amor, com enorme gratidão. E quis eternizar essa mulher contando um pouquinho da nossa história".
Anamaria enfatiza que, no processo de construção do espetáculo, ela e Capucho procuraram, na medida do possível, não fazer nada muito literário. "Mas sim que pudesse captar um pouco dos sentimentos, das palavras fortes que ele usou nas cartas ou que vieram como sensação na leitura dela. Levar isso para o corpo dele, para a dança. Então, não é tanto assim decifrar com exatidão que ele quis dizer com aquelas palavras, com o que escreveu, mas ser atravessado por essas sensações. Isso é mais um lugar de atravessamento de sensações e de afetações".
Mais que tudo, Anamaria diz que, ao fim, o que mais a toca, no espetáculo, é a maneira como essa mãe, Irene, mulher aguerrida, nascida em Sabará, e que cresceu na roça, cuidada pelos avós, lidou com a singularidade do filho.
"Sem nunca tratá-lo como uma vítima. Fez desse homem uma pessoa muito corajosa. Um homem que luta no cotidiano para a sua sobrevivência enquanto pessoa com deficiência, enquanto homossexual num país como o nosso. Acredito eu que, enquanto público, seremos afetados por tudo isso também".

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