Cultura

Poetagem: Surreal é a realidade, ou o inferno é aqui

Por Redação |
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TITO DAMAZO

Sim, surreal é aqui. Talvez, melhor seria dizer: aqui é o inferno. Os surrealistas nos disseram e estão a dizer em seus quadros justamente isso. Dali, naquelas fantásticas pinturas, sinaliza este fato. "Eisa designada realidade, não como insistimos em nomeá-la".

Em "Vidas secas", o menino mais velho estranhou a palavra inferno pronunciada por SinhaTerta. A palavra ficou comichando em seu juízo. A sua insistência em querer saber da mãe qual seria o significado rendeu-lhe um cocorote. Inconformado com a explicação, quis saber se Sinha Vitória o conhecera. A mãe viu petulância na pergunta e aplicou-lhe o castigo. Por certo a melhor resposta da mãe seria dizer-lhe que o inferno era aquela vida. Um deserto em braseiro vivo, sem fim, e a miséria a que eram relegados padecer.

Este exemplo, claro, é apenas uma forma de leitura fictícia daquela tragédia nordestina assimilada como rotina. Outros ficcionistas a enunciaram em sua obra literária. Entretanto, quaisquer delas, mesmo amonumental "Vidas secas", não explicitaram aquele inferno como o tem feito regular e periodicamente as mídias, hoje, com seu poder imagético inigual. Impotentes, atordoados, ficamos como se estivéssemos a ver não o real, mas, sim,o surreal; como se estivéssemos diante do inferno da "Divina Comédia", uma dimensão outra de ficção, a religiosa. Uma concepção raivosa e vindita.

Lá, pôs Dante os inimigos políticos, diretos responsáveis peloseu exílio definitivo. Banido, para todo o sempre, de sua amada Florença. Lá encerrou, igualmente, distribuídos pelos nove ciclos, muitos outros"diabos", os quais, aqui, nesse inferno por eles construído, infelicitaram os de pouca e nenhuma condição social, econômica e política. Para Dante, esses diabos deveriam pagar nos quintos dos infernospelo que fizeram aos homens de bem e de boa vontade; gente humilde e humilhada, quetinha fome e sede literalmente, mas também de justiça; gente a que, conforme desígnio de Cristo, pertencia o reino do céu.

Todavia, neste reino nosso, milênios depois de Cristo e séculos depois de Dante, esses diabos proliferam vivos e atuantes. E, muito mais do que antes, inumeráveis diabos travestidos de religiosos pregadores do mesmo reino do céu anunciado pelo cordeiro que tira os pecados do mundo.

E como enganam, e como iludem, e como exploram os humildes e humilhados. Há pouco, soubemos de um novo episódioem que se envolveram.Contrários ao aborto de uma criançade 10 anos!, cuja infância é daquelas que se veem completamente desassistidas.Sem mãe, sem pai, ignoradas pelo Estado e pela sociedade. Portanto, à mercê de toda sorte de exploração e suscetíveis à manipulação de várias ações de psicopatia, as quais atentam contra sua formação psicológica e socioemocional, deixando máculas e marcas que afetarão para todo o sempre sua personalidade.

É certo que o abuso sexual de crianças é um fato antigo. Há histórias e histórias a respeito. Todavia, sua frequência continua a ser uma chaga exposta a denunciar a incompetência de nossa estrutura social, política, econômica, judicial, educacional e governamental. É o grito parado no ar da infância brasileira indefesa à mercê de toda sorte de abuso e exploração, enquanto a falsa moralidade, carregada de interesses facciosos, ilude, despolitiza, deseduca e violenta em nome de um misticismo alucinado e atroz.

Então, uma criança dessa, certamente, já traumatizada para o resto de sua vida pelos assédios e violências sexuais de um tio, no mínimo, com transtornos psíquicos, teria que gestar um embrião em fase de formação humana, para depois, em plenos 10 anos e alguns meses de idade, ser chamada de mãe. Isto porque o movimento antiaborto a qualquer preço e a qualquer custo persegue a criança e a família para impedir-lhes o direito de praticá-lo, vez que o caso em questão não só é legítimo, como também garantido por lei.

Querem, pois, supostamente em nome da vida, chancelarem a destruição da vida de uma criança, cuja formação humana sequer iniciou ainda a adolescência; que ainda ama um ursinho de pelúcia; que não teve mãe, não teve pai e era violentada. Isso para que, ao fim e ao cabo, seu improvável "filho" se tornasse, muito provavelmente, como ela, mais uma criança sem mãe, sem pai, potencialmente suscetível a vivenciar situaçõessemelhantes.

"Menino mais novo", sua mãe talvez não soubesse como lhe dizer, mas por certo pressentia que o inferno, na verdade, era aquela vida de vocês e a de crianças como essa. Um puro surrealismo. Um inferno.

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