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Francisco Antônio Rodrigues: Indígenas, turismo e a covid-19

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

Falamos sempre nos benefícios do turismo em localidades que chamam a atenção das pessoas, seja pela sua beleza natural, seja pela cultura avivada durante os festejos, seja pela possibilidade de realizar negócios e gerar renda… Mas ainda não falamos dos verdadeiros e primeiros brasileiros, o povo indígena.

No último domingo (19), comemoramos o Dia do Índio (ou Dia do Indígena, como o povo está pedindo que se chame essa data), e nada melhor do que falarmos sobre eles em meio à crise contagiosa do coronavírus, o Turismo e os impactos econômicos e sociais aos quais eles estão expostos. É claro que nem toda aldeia é impactada negativamente pelo turismo, há também aquelas que se organizam da melhor forma possível para oferecer aos visitantes a mais fiel experiência com sua cultura. Positivamente, a Aldeia São Francisco, localizada no município de Baia da Traição - PB, é exemplo de boa qualidade cultural e atividade turística sustentável, tendo em vista que, os operadores da visitação no local são os próprios indígenas, infelizmente, ainda sem muito auxílio governamental.

Para Cândido, Vanzella e Brambilla, da Faculdade Estácio da Paraíba, em pesquisa sobre essa atividade turística na aldeia e publicada em 2016, “de acordo com os entrevistados, o turismo é desenvolvido pelos próprios índios que não modificaram seu modo de viver em prol do turismo. Na verdade, os inquiridos consideram que o turismo colabora com a venda do artesanato que sempre foi produzido pelos índios, funcionando como uma renda extra que lhes assegura a sobrevivência".

Do lado negativo, temos o exemplo de uma experiência vivenciada em 2015 pelo Doutorando e Professor de Economia no curso de Turismo da UNESP, Me. Roberson da Rocha Busciolli, em viagem de férias pelo Amazonas, visitou uma aldeia do povo Ticuna, há 40 minutos de barco da capital Manaus, que relatou o seguinte: "para o deleite dos visitantes, houve uma encenação com dança e lá estava o pajé com sua esposa e mais dois casais. Um casal era mais velho e outro bem mais jovem. No casal de jovens, a moça aparentava não ter mais de 16 anos, estava com os seios à mostra e claramente estava desconfortável com isso". Mas não precisamos ir ao Norte ou Nordeste do país para vermos ou maus exemplos, cultura aflorada na pele ou marginalização e descaso das autoridades. Aqui no estado de São Paulo existe tudo isso.

Em Ubatuba, litoral Norte, os indígenas da Aldeia Boa Vista, não puderam agradecer ao deus Tupã (deus da criação, segundo a crença), tampouco podem vender sua arte aos turistas - haja vista que é lucrativa essa atividade na aldeia. Na região Norte de São Paulo, indígenas sem abastecimento de água, sem comida ou dinheiro, fecharam os portões da aldeia para evitar a proliferação do coronavírus, o que provoca preocupação na Pastoral indigenista que "cuida" das suas necessidades. Alguns pesquisadores afirmam que o vírus pode dizimar algumas populações - assim como fez as doenças há 520 anos -, você deve se lembrar das aulas de história.

Sanitaristas "recomendam"que os indígenas que puderem "devem voltar às matas para se proteger". Meu Deus, onde estamos?! Voltar à mata? Todos deveríamos voltar à mata então! Mas, que mata? A mesma que é derrubada criminosamente a cada hora? Acredito que não há espaço para todos nós. Mas isso já é outro assunto. Pra encerrar, devemos ter cuidado com o tipo de produto que compramos.

Se nosso desejo é vivenciar uma aldeia indígena, assim como consumimos outros bens aos quais queremos garantias de boa qualidade, devemos nos atentar aos fornecedores e as ações que resultam neste produto. Falar em Turismo e em cultura indígena como produto deve ser tão preocupante quanto saber pra onde vão os detritos dos navios durante os cruzeiros, ou se o frescor dos frutos do mar que você consome está de acordo com normas sanitárias, ou ainda, se o produtor orgânico da sua horta é realmente orgânico ou só está te vendendo um rótulo.

No final das contas, ao que parece, é que algumas aldeias tem enfim rezado, sem cena, aos deuses Tupã, Jaci, Guaraci, Anhagá, Akuanduba, Sumé, Ceuci, Uorixiriamori, ou qualquer outro que possa ajudar no combate ao covid-19.

Francisco Antônio Rodrigues é turismólogo, empresário e escritor amador

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