Araçatuba

Ayne Salviano: A importância de saber usar as palavras

Por Redação |
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‘Os dicionários ensinam que a palavra " energúmeno" tem múltiplos significados. No passado, referia-se à pessoa dominada pelo demônio, era o mesmo que possesso ou possuído. No sentido figurado, ainda hoje, trata de alguém dominado pela paixão, com atitudes e comportamentos excessivos, um fanático ignorante. Mas há, também, o sentido pejorativo. Quando se xinga o outro de energúmeno é o mesmo que dizer que o indivíduo é ignorante, muito básico, boçal.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro chamou o Patrono da Educação Brasileira, o filósofo Paulo Freire (1921-1997), de "energúmeno". Foi durante uma entrevista aos jornalistas enquanto comentava o fechamento da TV Escola, programação educativa voltada para professores e alunos. Os argumentos do presidente para o fechamento da emissora foram que os programas "deseducavam" porque eram formatados aos moldes de Paulo Freire.

Esse modelo, na verdade, é um método de alfabetização para adultos desenvolvido em 1960. Para o processo de ensino-aprendizagem, Freire considerava o conhecimento prévio dos estudantes. Foi aplicado pela primeira vez em 1963 em um grupo de 300 cortadores de cana em Angicos, no Rio Grande do Norte. A alfabetização deles aconteceu em tempo recorde de 45 dias.

Apesar de o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, considerarem o educador Paulo Freire "de esquerda", foi a Aliança para o Progresso, do governo dos Estados Unidos, que financiou os trabalhos porque via, na alfabetização, uma forte aliada contra o comunismo.

Enfim, é preciso respeitar as palavras (as pessoas, a história). Paulo Freire não é energúmeno porque nunca esteve possuído pelo demônio. Também jamais foi fanático. E passou longe de ser um boçal. Ao contrário, trata-se do brasileiro com mais títulos Honoris Causa, em pelo menos 35 universidades internacionais. O mundo estuda Paulo Freire.

Uma vez, o grande escritor Ariano Suassuna (1927-2014), comentando justamente sobre a importância de se respeitar as palavras, criticou o jornalista Eduardo Miranda porque o repórter chamou o guitarrista Chimbinha, da Banda Calypso, de genial. Disse Suassuna na ocasião: "Se eu gasto uma palavra como 'genial' com o Chimbinha, o que vou escrever sobre Bethoveen?"

Assim é. Não podemos usar as palavras indiscriminadamente. Nem trocar os seus sentidos. Tentar manipular a opinião pública sem conhecer as palavras é, no mínimo, ingenuidade.

Ayne Salviano, jornalista e professora

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