As noites em São Paulo costumam ser frias. Sem afeto, solitárias e com um vento gélido que corre as esquinas empilhadas de solidões. Leandro caminhava com destino à padaria onde jantaria consigo mesmo em passos lentos. Quem o visse – se alguém fosse de prestar atenção em outras pessoas nos dias de hoje – teria certeza de que ele estava indo para a morte. Cabeça baixa, ombros caídos, passos que arrastavam pela calçada fazendo um barulho surdo.
Os carros, as pessoas, as luzes das vitrines festivas montavam um estranho cenário de euforia desconexa com a tristeza das pessoas e principalmente dele, um vendedor de remédios que vivia de prometer alívio para dores do corpo ao mesmo tempo em que carregava todas as outras na alma.
Há vinte metros de seu destino, fora abordado por uma menina muito bonita, de lábios finos e olhos verdes penetrantes.
Moço, paga um lanche para mim?, disse ela, com um sorriso entre malicioso e infantil.
Quem é você, menina?, respondeu Leandro, entre assustado e apaixonado por aquela figura linda, de cabelos claros sobre os ombros semi nus e calça jeans rasgada que mostravam quase tudo o que mexeria com qualquer homem,
Meu nome é Priscila. Paga um lanche para mim!, voltou ela à carga, com uma voz doce.
Diante a hesitação do rapaz, a moça dos olhos hipnotizantes foi direto ao ponto.
Paga um lanche, moço. Depois eu te acompanho e te faço feliz por duas horas, disse ela, virando um pouco o corpo escultural para seduzir o triste interlocutor.
Leandro cedeu. Entraram na padaria e ele a deixou livre para escolher. A beleza dela deixava o rapaz completamente extasiado. Como poderia, se perguntava, uma menina tão linda, estar nesta vida, nas ruas?
Qual sua idade, Priscila?
20 anos, mas todos acham que tenho 16. Mas é verdade… que ver meu documento?, argumentou ela fazendo o gesto de pegar o documento em sua pequena bolsa laranja, de detalhes verdes.
Leandro fez um gesto negativo com a cabeça e as mãos. Eles então jantaram lanche, em silêncio. Priscila comia aquele pão com fomes de muitos dias de privação. Ele foi, sem dizer palavra alguma, nutrindo uma paixão avassaladora pela moça.
-Você é advogado, moço?, questionou ela, com algum sorriso no rosto.
-Não, sou vendedor. De remédios. Precisa de um advogado?
-Não, não. Mas é que você parece um.
-Sou mesmo vendedor.
Você me parece uma pessoa triste, disse ela, limpando o canto da boca sujo de maionese com a ponta dos dedos.
Sou um pouco. Viajo muito, quase nem lembro como é minha casa, minha cidade. Estou em tantos lugares e em nenhum ao mesmo tempo.
Ele quis perguntar sobre a vida dela, confirmar de ela era mesmo garota de programa ou só tinha dito aquilo para ganhar um jantar. Mas Leandro preferiu voltar ao silêncio de entes. E pelos olhos dela, ele via uma ternura que estava escondida em suas memórias distantes. E isso aqueceu seu coração. Leandro se sentiu feliz.
No final, a moça de cabelos de outro disse que precisava ir ao banheiro e que era para ele esperar ali, para que ela cumprisse sua parte do acordo. Leandro não sabia ao certo se queria mesmo ficar com ela, uma moça tão linda, a troco de um lanche.
As noites em São Paulo costumam ser solitárias. E foi com o vento gelado no rosto que Leandro voltou sozinho para o hotel. Priscila nunca voltara do banheiro. Ele estava feliz, pois já tinha recebido mais do que umas horas de amor emprestado. Quem o visse teria certeza de que ele carregava uma felicidade enorme. Priscila deu atenção a ele por meio de seus olhos. O melhor remédio que existe e que nenhum vendedor pode comercializar.
Jean Oliveira é jornalista, bacharel em Turismo e funcionário público municipal
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