Não é de hoje que eu espero por uma barriga tanquinho. Na boa? Nem acho que ela venha. Nesse mundo superficial de #bumbunsnanuca, acredito que as pessoas nos separemem categorias, do mesmo modo como classificam os hotéis. Para entender melhor: pense que cada estrela de hotel é um gomo de barriga tanquinho.
Em hotéis duas estrelas, "dá para passar a noite". Num quatro estrelas,todos se acomodam felizes. Já desfrutar de um seis estrelas é sonho quase impossível.
Bem, mas vamos voltar a falar sobre a minha barriga. Nos parágrafos seguintes, explicarei porquê a gula é o meu maior pecado capital.
Nasci um tanto quanto frágil, tendo que tomar banho de luz, pois meu sangue era incompatível com o da minha mãe. Por alguma razão desconhecida, nem leite materno eu aceitava. Achavam que eu iria morrer de desnutrição. Acabei me tornando uma criança mirrada que não ligava para comida. Até me recordo do cheiro tentador do pão caseiro feito pela minha avó materna num grande forno à lenha, mas eu me satisfazia com um ou dois pedaços e voltava a brincar.
Ao completar dez anos, algo estranho aconteceu. Enquanto algumas crianças se tornavam rebeldes ou mal educadas, eu virei glutão. Na época, não se tinha consciência de valores nutricionais, tampouco se falava nisso. Uma coxinha era apenas uma coxinha, não uma vilã demoníaca com poder maquiavélico de acabar com sua vida.
Meu colégio tinha dois intervalos. No primeiro, eu voava para a cantina. Matava dois salgados e um refrigerante. Já no segundo, era a vez do pipoqueiro. Pipoca gigante com molho de vinagre esaco lotado de balas. Na saída, voltava para casa estragando o aparelho dentário com os piruás que o Baianoguardavapara mim com tanto carinho.
Na adolescência, enquanto meus amigos desejavam a paquitana capa da Playboy, eu desejava pastéis. Comiaque nem um filho da pota.Para a psicologia, talvez eu estivesse descontando algum trauma na comida. Para mim, parecia ser fome mesmo. A criança magra e retraída havia se tornado o gordo engraçado da escola. Cada um sobrevive ao ensino médio como pode.
Todo mundo me queria por perto, mas na hora das brincadeiras dançantes, quando tocava música lenta e os casaizinhos dançavam colados, eu segurava uma vassoura. (Caso você não conheça a dança da vassoura, pergunte para um amigo com mais de trinta ou dê um Google). E eu era sedentário pra caramba, né? Cidade quente, pouca gente andando a pé. Adorava um atestado médico para me livrardas aulas de educação física. E quem é do interior sabe: bobeou, nóiscome. Muito cupim casqueirado com mandioca cozida, arroz, farofa, molho vinagrete. E Coca Zero por desencargo de consciência.
Minha sexualidade deu as caras quando completei dezesseis anos.(E eu nem a queria, estava bem feliz com minhas guloseimas). Mas como adolescente vive em grupo e morre de medo de rejeição, comprei um remédio "homeopático". Ele era vendido livremente e deixava as pessoas com nojo de comida. Em questão de meses, havia perdido vinte quilos e ganhado quinze centímetros de altura. Virei um daqueles magros barrigudinhos, mas nada que uma lipoaspiração aos dezoito anos não resolvesse.
Quando meu corpo já dava sinais de "come essa sobremesa logo, otário" (é muito difícil morar na casa dos pais e fazer regime), fui estudar no exterior. No primeiro ano, caí numa casa de família.Uma de minhas "irmãs" adorava encher meu rabo de tranqueiras: Dukin' Donuts, KFC, Domino's Pizza. Claro que jamais recusei, muito menos achei ruim.
Graças ao bom Deus e a um TOEFL alto, entrei para a universidade e me mudei para São Francisco. Apesar do meu prédio ficar na frente de uma estação de metrô, eu fazia tudo a pé. Peguei gosto por longas caminhadas, mesmo numa cidade que mais parece um tobogã. Talvez por andar tanto, talvez por tervinte anos, comia de tudo e ainda emagrecia. Comida pronta de supermercado, baldesde sorvete, bacon, ovos mexidos, toneladas de panquecas. Chocolate então, nem se fala. Caso enfileirassem todos os M&M's que já ingeri, pisariam emMarte.
Todos os anos, eu vinha passar férias no Brasil, onde me esbaldava. Alguém já encontrou comida melhor do que a nossa? Eu,ainda não. Arroz, feijão, bife. Até doce de abóbora caseiro me fazia dar uma dançadinha.
Assim que me formei, voltei de vez, trabalhando um tempo em Porto Alegre. Sentia muita falta da Califórnia e acabei ficando deprimido. Você chora ao se deprimir? Eu como. Descobri o sagu com vinho e creme, as cucas de goiaba… Ir para Gramado e voltar com o beiço cheio de gordura havia se tornado uma tradição. Tempos depois, fui morar em São Paulo.
Por exigências das sociedade (vou culpar a sociedade), comecei a malhar feito um camelo. Cortei frituras, álcool e açúcar. Usando vários recursos, alguns naturais, outros nem tanto, fiquei do tamanho do Frota. Tríceps saltando, trapézio gritando, peitoral explodindo. Já a barriga… Quatro estrelas. Foi o máximo que consegui. Os dois gominhos inferiores, aqueles filhos da pta, se recusaram a dar as caras. E eu tentei de tudo. Injeções pra dissolver gordura, frango grelhado o tempo todo, academia seis vezes por semana. Nada. Do umbigo pra cima, sequinho. Do umbigo pra baixo, barriga d'água. Meu trabalho sempre foi o de escrever. Passo praticamente o dia todo sentado. Morro de inveja (olha aí outro pecado capital) dos que vivem pra lá e pra cá. E onde quer que eu escreva, há sempreuma guloseima por perto. Integral, sem glúten, lactose ou açúcar. (Tô zoando, éPaçoquita pra cima). Um amigo que é personaltrainer e nutricionista até tentou me ajudar por um tempo. "Celso, você tá seguindo a dieta que te passei?" Eu respondia "Claro, queijo cottage temperado com sal e azeite é uma delícia!" Antigamente, ele acreditava. Hoje, já não acredita mais. E assim termino meu relato. Na boa? Fda-se a barriga de tanquinho.
Quando mencionei um seis estrelas, garanto que muitos leitores ficaram pensando sobre o luxo e a ostentação que umhotel dessa categoria deve oferecer. Já a minha cabeça de gordo foi direto namesa do café da manhã. Imaginemo tanto de comida boa?
*Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com
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