Tomamos o coletivo em direção à rodoviária. Passa numa enorme avenida próxima ao hotel. Quase tudo em Brasília é grande, largo, comprido. É a condução do povo. Aboletados em assento reservado a "preferenciais", vamos observando o trânsito, a paisagem, as coisas, as pessoas. Uma contínua e intensa movimentação de entra e sai a cada ponto. Gente simples, modesta visivelmente. Se acomodando como podem e quando podem em bancos severos. Agarrando-se ao que podem para aguentar a bruteza dos solavancos de brecadas e curvas manobradas por um motorista, gente como eles, que tem horário a cumprir.
A imensa rodoviária. Nela uma mistura de ônibus e gente num fluxo e refluxo de chegada e saída. Nela zumbe a massa descendente dos candangos, que a ela e o que mais há de antigo nessa capital do País construíram. Apressam-se de uma plataforma a outra para ocupar a imensa fila de embarque para seu trabalho, que se dá em Brasília propriamente, a cidade-centro. Findo o dia, tornam a tomar coletivos para sua morada, que se situa nas cidades satélites.
Durante uma semana vivenciamos com eles aquela situação. Antes da sete da manhã, no ponto de coletivo para o ônibus à rodoviária. Ali, na fila, para o embarque à UnB (Universidade de Brasília). Participávamos do Congresso Internacional de Literatura Comparada que, desta vez, nela se realizava. À tardezinha, tornávamos, fazendo a mesma operação: ponto de coletivo da Universidade à rodoviária; nesta, fila para o coletivo que passaria próximo ao hotel.
A dura rudeza do transporte coletivo. Os dois períodos eram fluxo de pico. Para muitos, hora de ir e hora de voltar do trabalho. Via de regra, vão, pois, os ônibus entupidos de gente. Não se podia acreditar que coubesse tanto. Vida de gado, povo excluído.
Não foi a primeira vez que nos locomovemos desta forma. Lembro-me que no Congresso em Belém do Pará, também fizemos assim. Aí era do hotel para a Universidade. Esta fica no extremo da cidade. O ônibus, necessariamente, passa por alguns bairros da grande periferia. Foi algo igualmente semelhante. Nessa ocasião, durante o trajeto de ir e vir, pudemos ver duras cenas de pobreza e mesmo miséria espalhadas pelas ruas, calçadas, quintais.
Na Universidade, discutimos projetos de pesquisa sobre questões literárias, culturais, de ensino e educação, as quais, normalmente, permeiam situações humanas e, não raramente, da realidade brasileira. Depois, tornamos para o conforto do hotel. Mas, deliberadamente, conduzidos pelo desconforto do transporte coletivo. Uma rude experiência.
Quando, depois, no fim da semana, se vai passear pelos pontos turísticos e recreativos públicos, por lá se pode ver boa parte dessa gente humilde, o que nos dá vontade de sorrir. Estão no extraordinário mercado de Ver o Peso, na Estação das Docas, no Mangal das Garças, na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.
Num sábado, em Brasília, lá estão, em meio aos outros, na catedral. Compenetrados em sua reza, tirando fotos e fazendo selfs com Cristo, com os anjos dependurados, com Dom Bosco, com a Pietá. Lá estavam no Museu Nacional, apreciando as pinturas expostas, tirando foto, fazendo self.
Desses lugares, indo a pé até o Congresso Nacional, à Praça dos Três Poderes, ladeando a Esplanada dos Ministérios, se vai cruzando com essa gente que também quer apreciar a beleza daquelas construções. Não exatamente reverenciar os poderosos que ocupam esses espaços e que, justamente no fim de semana, se mandam. Mas, como de resto deve fazer a grande maioria dos que para ali se dirigem, reverenciar, sim, aqueles magníficos complexos arquitetônicos, ainda que, muitas vezes, não levem a consciência de que, para que assim se fizessem, custaram muito sangue e suor de seus ancestrais e continuam custando pesados ônus pagos por toda a sociedade brasileira para serem mantidos.
Alienados ou não, vão querendo ser felizes, querendo também ter o direito de contemplar, como podem, o belo, que deveria sempre ser um direito efetivamente garantido, sem restrições e distinções a todos os cidadãos.
Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e presidente da AAL (Academia Araçatubense de Letras)
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